Um alerta da União Europeia veio informar as famílias de que devem preparar-se para ter em casa mantimentos para sobreviverem durante 72 horas. Esta, que é uma estratégia de preparação para “eventos externos”, atingiu os europeus qual sismo, fazendo-os tremer face ao futuro. E, de súbito, eu fui também abalada por questões - algumas fruto do meu próprio privilégio, admito – mas outras da observação do mundo.
A minha primeira pergunta foi: quem raio não tem em casa os essenciais para sobreviver durante 72 horas? Certo é que, quando vou aos supermercados e me deparo com as filas infernais, quase parece que toda a gente vai lá diariamente. Mas eu sou a pessoa que equipa o carrinho com o suficiente, no mínimo, para tentar não lidar com as pessoas e as filas todos os dias... E, claro, há dias em que se abre a despensa e não há aquilo que nos apetece... mas em caso de absoluta necessidade, tenho a certeza de que se inventa qualquer coisa para comer, nem que seja com aquele produto enlatado que se comprou já-nem-se-sabe-quando-ou-porquê, mas que ainda está dentro do prazo de validade. Além disso, diz a ciência, o corpo humano está preparado para sobreviver entre 30 e 60 dias sem comida e entre 3 e 7 dias sem água. Ou seja: os essenciais para sobreviver durante 72 horas são, literalmente, porra nenhuma!
Seja como for, a União Europeia está preocupada e a alarmar os europeus. O alarmismo já provou que funciona. A trela do medo é curta e as suas lentes transformam facilmente tiranos em salvadores.
O kit de sobrevivência de 72 horas, no entanto, não parece incluir enchidos, vinho tinto e lugares para jogos de futebol. Acredito que os portugueses continuem a assobiar para o lado... evento externo, por aqui, é quando o Benfica não joga em casa. E, seja ele campeão... tudo se resolve!...
Portugal - e nisto temos que lhe tirar o chapéu! - está a preparar os cidadãos para este tipo de notícia há anos! Hoje, a maioria das pessoas sabe sobreviver! Sabe-o, principalmente, porque não consegue viver... Em algumas casas, quando há festa e se comete a loucura de fazer cozido, ele tem sobrevida em massa de carne, pataniscas de carne, arroz de cozido, arroz de carne, massa com carne e enchidos, sopa de cozido e sopa de osso. E, isto é no mundo das famílias ainda beijadas de privilégio... Porque casa em que acontece poupar-se é casa que ainda se tem... e tanta gente não tem...
As tendas – onde não há cozinha ou despensa - criam pequenos condomínios públicos... tão públicos que ficam na via pública, não há despensa para guardar mantimentos para 72 horas. (Se isto vira lei, ainda os multam por isso!) Seja como for, a verdade é que estamos a falar de seres humanos treinados para a crise. Seres humanos que facilmente aguentam 72 horas sem comer. Alguns deles, andam a treinar há anos...
Na União Europeia deviam estudar Portugal!
Somos um país de gente cada vez mais capaz de sobreviver a eventos externos! É sobreviver aos eventos internos que está a tornar-se complicado...
(Sabem? Os nossos partidos são como aquele produto que se comprou já-nem-se-sabe-quando-ou-porquê, mas que ainda está no armário. Se estão dentro do prazo de validade? Não sei! Tenho as minhas dúvidas... mas tudo bem cozinhado, apesar de alimentar infinitamente os media, é tão poucochinho, que estou certa de que não daria para alimentar uma família real por 72 horas!)
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