quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Na minha pele


Marcaste-me na tua pele. Da primeira vez que me pegaste ao colo. Marcaste-me. Na tua pele. Como um corte sem dor, que deixaria uma cicatriz impressa na alma, ditando-nos, nos gestos, mais palavras do que as que se armazenam em dicionários e enciclopédias.
Em mil (pre)dispostos de carinho, foste acomodando pedaços meus em ti, aceitando uns com a simplicidade da vida. Discutindo outros, para que eu acautelasse os traços de tudo o que tu vias que poderia ver a ser impeditivo de um amanhã. E, entre aceitação e dúvida, caminhaste comigo. E fizeste-me. Todos os dias. Parte. De ti. Marcaste-me. Na tua pele.
Chovesse ou fizesse sol. Nas tempestades da vida. E nas vagas de indiscutível quentura. Concordasses ou não com os meus passos. Seguisses já, ou não, pelas minhas pedras. Vieste. E, vindo, trazias a muralha nos teus braços, que envolvias em meu redor. Protegias-me de tudo o que viesse. De tudo o que pudesse eventualmente vir. E eram palavras. E eram gestos. E eras toda carinho. Enquanto o fazias. Enquanto me marcavas. Na tua pele.
Houve sempre ternura nos teus gestos, quaisquer que eles fossem. E sabedoria nas tuas palavras. E carinho nas tuas mãos. E aconchego no teu olhar que se lançava, meio aguado, meio choroso, sobre vitórias e despedidas breves. Caía-te do olhar, pura como a tua alma, uma gota de esperança que me fazia também escrava da saudade precoce, estando ainda junto a ti. A olhar para ti. Vendo-me menina. Vendo-me mulher. Vendo-me como ninguém me vê. Marcando-me. Na tua pele.
E nas estruturas. Edificadas beijo a beijo. Sonhadas dia após dia. Lá fomos. Sendo. Tu e eu. Mais do que tu. Mais do que eu. Um nós perpétuo, que se vinca na pele e se vincula na terra até ser raiz. E eu? Indo. E tu? Caminhando ao meu lado, real ou ideologicamente. Mas sem nunca resistires ao ímpeto de me acompanhares na jornada. Porque também sabias. Que o tinhas feito. Que me tinhas marcado. Na tua pele.
E, à medida que me marcavas. Na tua pele. Na pele da tua alma. Na pele do teu coração e nas células que o constituem. À medida que me tornavas eternamente parte do que ninguém rouba. Eternamente tua. Eternamente criança. Também eu o fiz. Marcava-te. Na minha alma. No meu coração. Na minha pele.
Um dia, olhando ao espelho. Incomodou-me ter-te tão profundamente em mim. Escondida. Como se fosses segredo. Nos meandros do que não se vê. Incomodou-me ter-te marcada em mim sem que ninguém o soubesse. Sem que ninguém o visse. Quis que o mundo pudesse ver-te em mim. Roubei-te a caligrafia e a palavra que me disseste mil vezes. Marquei-te na minha pele. E agora o mundo vai poder ver-te em mim. Enquanto eu caminhar sobre o mundo. Nesse tempo de eternidade humana que é breve, tão breve, tão mais breve do que o meu amor por ti…



Marina Ferraz


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