terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Olhares comprometidos



Olhares comprometidos. Tantos. Olhando em redor. Sem ver mais do que embaraço. Vivendo o vexame de tudo o que não regressa. Comprometidos. Mas sem compromisso. Porque olhos que não vêem não podem dar-se nas ruas, sem que haja desconforto. E o desconforto é abismo. Quedam-se. Olhares. No chão. Neles permanecem, vivos mas a fingir que estão mortos. Porque sabem. Sabem que estão comprometidos.
Os pés são companheiros eternos desses olhos. E, não podendo simplesmente ir, vão indo. Com a atenção desconfortável de dois olhos que já não encontram outro horizonte que não o dos sapatos, à medida que estes vão pisando pedras e ervas e resíduos orgânicos nos passeios sujos da cidade.
Tão intrincados estão, os olhos e os pés, neste jogo de amor desalentado e fuga coerciva, que há quem julgue que se namoram. Não é que o façam. Nunca a sua relação passou disso mesmo, do encontro desamparado entre os dois, com metro e meio de distância, como mandam os bons costumes. Mas permanecem na luta inglória pelo desapego e são ambos conhecedores dos saberes da ignorância. Os olhos ignoram a vida. Os pés ignoram o chão. Comprometidos. Mas não uns com os outros. Ignoram. Porque saber dói.
E os olhos dizem que dói. Principalmente os que, comprometidos, se quedam nos pés. Sabendo, de uma forma algo implícita, que abarcar o mundo traz um sabor acre para o centro da doçura da insipiência. São olhos desalentados, também. Mas, principalmente, são olhos comprometidos e iletrados. Olhos que, podendo escolher qualquer coisa, escolhem ainda não ver.
Nessa cegueira consciente que acaba em metamorfose, os olhos deixam de ser olhos e passam a ser ecrã. Passando, de forma repetitiva e acrítica, as mesmas passagens ilusórias do que a vida deveria ser. Porque, se o fosse, o sossego permitira olhar em frente e ir, com desapego e indiferença, por entre ruas de tijolo dourado, onde tudo luz e resplandece.
Os olhares comprometidos sonham. Com uma bolha de utopia. Sabem que é utopia. Fingem que não sabem nada. E vão, de pedra da calçada em pedra da calçada, atrás de si mesmos, para se obrigarem a cegar. E cegam. Criam barreiras e muralhas. Lentes opacas. Feitas de chão. Feita de pés.
Não há compromisso no olhar comprometido desses olhos. São só cegueira. Voluntária. E têm, por isso mesmo, o único intuito de não ter sonhos acima do chão onde pousam, para ver os pés que caminham,  metodicamente e só porque sim.
Olhares comprometidos. Tantos. Se olham os meus, de relance, logo sentem que queimam. Porque os meus, ainda que não possam sarar o mundo, sabem olhar para ele. E têm lágrimas. Lágrimas que são vidro onde se reflete uma imagem mais ampla sobre o que se transfigura nas raízes podres do tempo.
Passam. Pés no chão e olhos nos pés. Olhares comprometidos. Feitos do mesmo resíduo orgânico que se pisa nas ruas sujas da cidade.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Sala de espera



Nos pulsos trazemos pulseiras verdes. O que significa que estamos razoavelmente saudáveis e que, provavelmente, será ainda cedo para que sobre nós escrevam elogios fúnebres.
Há personagens tipo nas cadeiras da sala de espera.
Começa n’“A Acompanhante”, a senhora que vem só prestar apoio e que, para tal, traz na mochila, o conteúdo pleno da sua despensa. Cede, à doente, de ar meio enjoado e com três camadas de impaciência, uma banana e um comprimido. É uma cuidadora nata. Aquela que servirá, provavelmente, de cozinheira e de enfermeira e de ombro amigo. Embora, provavelmente, alguém devesse dizer-lhe que, numa sala de espera de hospital, as pessoas não devem automedicar-se.
A algumas cadeiras de distância, temos “O Anti-social”. Este pode ser reconhecido pela forma como pousa estrategicamente a mala no banco da direita e o casaco no banco da esquerda, mantendo o nariz enfiado no telemóvel e os fones nos ouvidos. Lança, ocasionalmente, um olhar muito breve ao não-andamento dos números, à espera da sua vez. Evita contacto visual e, se acaso ele acontece, desvia o olhar, como se queimasse.
Muito semelhante a este, é "O Geek". Nas cadeiras ao seu lado, não pousa nada mas também ninguém se senta nelas. Tem uma mini-consola na mão, onde joga com a mestria de quem não está doente, e enverga orgulhosamente uma camisola do Star Wars. Usa óculos de massa com lentes grossas e parece a única pessoa que não está no limiar enfadado da impaciência.
Há, também, “O Exagerado”. Este tipo, trazendo uma pulseira verde, como todos nós, insiste numa coreografia que implica andar aleatoriamente para a frente e para trás, sentar, pôr a cabeça entre os joelhos, endireitar-se, esfregar o rosto, levantar e repetir. Tudo acompanhado de “ais” e “uis”, cuidadosamente alinhados com as vozes dos médicos, quando estes chamam pelo nome de um outro paciente.
“O Estratega”pode ser reconhecido pela presença de um ou dois acompanhantes. Como é que ele entra com dois acompanhantes será uma questão para depois. Ausenta-se frequentemente da sala de espera e vai, sabe-se lá onde. Deixa sempre indicações aos enfadados companheiros que prontamente aceitam a tarefa de o avisar se for chamado. Liberta-se, assim, da vigília sobre o ecrã dos números saltitantes, da permanência junto ao cântico d’ “O Exagerado” e do enfado das cadeiras cinzentas.
Chega, entretanto, “O Profissional”, no seu fato de calças engomadas e casaco. Quando chega, já vem a falar ao telemóvel. Mas, provavelmente, esta é a chamada número 101 das 10 mil que atende durante a sua permanência. Todas as suas conversas começam por “Já te disse” e acabam com “vê lá se fazes tu isso, que eu digo quando sair”. Está mais preocupado com o escritório do que com o mal que o trouxe e reclama da demora com os outros pacientes, os médicos que passam e a senhora da limpeza, por vezes ao mesmo tempo que fala com o colega de trabalho ao telemóvel.
“O Exaltado” é outro tipo frequente. Este exalta-se quando o número 097 é seguido pelo número 052, sem perceber que há pessoas chamadas mais do que uma vez. “Mas já não ia no 097? Assim nunca mais!”. O desabafo é rugido em tom mais ou menos alto. Para que entendam as suas palavras no interior dos consultórios e saibam que ele estudou matemática e, como tal, sabe que 052 é um número menor do que 097.
Voltamos, então, a atenção para “O Enjoado”. Este tipo vem com a mãe e senta-se estrategicamente ao lado da casa de banho. Reclama do cheiro do chocolate que a pessoa do lado come e corre para os lavabos para firmar a sua descontente posição sobre o facto de as outras pessoas comerem quando, tão obviamente, ele não consegue. Volta com um tom amarelado e os olhos esbugalhados, fitando a senhora do chocolate como se fosse uma assassina em série.
Não fica só na indignação, posto que logo se lhe junta a figura que apelidaremos de “O Coagido”. Olhar igualmente matador envia ao seu acompanhante e ao relógio, intercalando-os e polvilhando-os com o brilho de frases como: “Eu bem te disse que não era preciso vir!” ou “Eu estou bem, vamos é embora!”.
E, porque ouvir estes queixumes deixa qualquer um com desejos alimentares, surge outra personagem. “O Dos Trocos” é um tipo inegavelmente comum. Há sempre dois ou três numa sala de espera, em simultâneo. E, como parecem sempre escolher lados opostos da sala, estabelecem uma comunicação algo caricata, ao identificarem-se. Levantam-se, vasculham bolsos e carteiras, lançando olhares furtivos à máquina do café e das comidas. Desesperados, lá acabam por perder a vergonha e perguntar: “Alguém tem trocos para 5 euros?”. Inicia-se uma troca mais ou menos desinteressante, de um canto da sala para o outro. “A Acompanhante” não tem mas oferece uma banana. “O Exaltado” aproveita a deixa para reclamar da espera e da fome que o obrigam a sentir. “O Anti-social” afunda-se na cadeira. E só cessa quando alguém o interpela e oferece os 0,50 cêntimos necessários para calar aquelas pessoas, substituindo-se, então, o som das vozes pelo das máquinas. Fica um aroma a café na sala e “O Enjoado” corre de novo para a casa de banho.
No centro desta confusão, notamos “O Idoso”, aquela pessoa que espera, silenciosa, no seu canto, habituada à invisibilidade e que, claramente, já devia ter sido atendido. Vê mal o ecrã e pede que lhe digam qual foi o número chamado. Alguém o ignora. Alguém responde. Ele não faz ondas.
No centro disto, sobro eu. Suponho que o meu tipo seja “A Gaja Estranha Que Está A Escrever Num Caderno”… mas sei lá! Também atendi uma chamada. Também tenho malas na cadeira ao meu lado. Também gosto de Star Wars. Também procurei trocos para a máquina do café.
No fundo, o que somos todos, nesta sala de espera, é pessoas. Mais ou menos impacientes. A querer ir para casa. Ainda hoje. Se for possível.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet


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