terça-feira, 14 de novembro de 2017

Tu sabes


Para a minha mãe

Sabes quem eu sou.
E foram muitos a achar que sabiam quem eu era. Mas não. Não sabiam. Porque havia uma capa. E sob ela um invólucro. E sob ele a muralha. E atrás dela três níveis de fingimento. E mais dois de agressividade. E pelo menos um de dissimulação. Eu permanecia atrás delas. E não. Eles não sabiam. Eles não sabem. Nunca souberam. Quem eu sou.
Tu sabes.
Sabendo, rasgaste a capa. E depois o invólucro. Quebraste as pedras da muralha. E permeaste os níveis de fingimento; combatendo fogo com fogo na minha agressividade e ganhando-me com a confiança que dissipava a hipocrisia. Atrás delas, estava eu. Mas não um eu como não imaginavas que eu fosse. Eu, como já sabias que eu era. Enquanto eles não sabiam. Porque eles nunca souberam. Quem eu sou.
Sabes quem eu sou.
Talvez porque te cresci nas entranhas. Talvez porque me expulsaste de ti apenas para me envolveres nos braços. Guerreira planetária. Pantera negra. Rugindo. Alto. Na voz de ventos descobertos em mares de além. Tinhas um povo. Eras um povo. Um exército de proteção em meu redor. Mesmo antes da capa. Mesmo antes do invólucro. Mesmo antes da muralha. Contra tudo e todos. E mais os outros que pudessem vir. Eras. Foste. És. Serás sempre. Esses braços de ferro e fogo. Que me aquecem com ternura e condenam quem me macula. No mesmo tom. Pelo mesmo sentido.
Tu sabes.
Talvez porque me viste ser menina. Ou talvez porque me viste ser mulher. Ou talvez porque me viste ser monstro. Não sei a razão. Mas sabes o que fica por baixo da pele queimada da vida. Como quem sabe de vidas nunca vividas. Ou de tempos por devir. E, sabendo, acalentas com palavras ou conselhos ou insultos de baixo espectro esse eu que, por vezes, nem eu mesma sei que sou.
Tu sabes quem eu sou.
Penso que o saibas, também, porque me construíste do zero. Me produziste do nada. Me moldaste de um barro muito próprio e pessoal, com partes de ti e da tua alma. Gosto de pensar que partilhamos. A alma. O coração. Gosto de pensar que nos partilhamos. Encaixando noções do mundo em espaços desusados que as outras pessoas não aceitam e não entendem. Talvez por não entenderem, as outras pessoas não sabem. Quem eu sou. Mas tu sabes. Ainda que não o digas. Tu sabes. E eu sei que sim.
Saber é muito importante num mundo de enganos.
Saber é muito importante num mundo de ignorância.
Quem sabe é quem está. Quem fica. Quem não nos deixa sós.
Sabemos.
Sabes bem quem eu sou.
E eu sei bem quem tu és.
Tu és a pessoa que sabe. Mesmo o que mais ninguém sabe. Mesmo o que nunca ninguém soube. Mesmo que mais ninguém saiba. Tu sabes de mim.
Quero dizer-te uma coisa. Não digo. Basta um olhar. As outras pessoas não vão entender. Tu vais. Porque tu sabes.
E está tudo dito.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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