terça-feira, 7 de novembro de 2017

Burocracia



É uma espécie de plataforma legal. Que nos leva. Lentamente. Na fluidez de um tempo próprio. Que se estende e expande, até que cada segundo seja uma hora e nela saibamos puxar fios soltos de uma tapeçaria que nunca acaba.
Algures, para não ficarmos enrolados nesse tear constante de possibilidades que nunca se concretizam, vamos enredando diminutos nós de forca e usando as linhas como gargantilhas. E vão puxando, todos os dias um bocadinho, o chão debaixo dos nossos pés. Com as mãos do silêncio e da improficiência grosseira, resultado de muitas inépcias e muito ócio fora de tempo. Obrigando-nos a ficar num posicionamento débil de equilíbrio, nas pontas dos dedos, fazendo um bailado sobre o ar. Se nos chega a dor sistémica, falta-nos a leveza dizível. E tombamos.
Um aplauso. Um riso. Uma frase feita de clichés. Tudo melhor do que nada. Mas vem isso. O nada. Sem aplauso ou riso ou cliché. Sonhamos. Queremos. Outra coisa. Qualquer coisa. É um desejo onírico, onde se trazem vulgaridades dependuradas nas mesmas cordas que se enlaçam e nos libertam da necessidade inusitada da respiração.
É uma espécie de plataforma funcional. Diz que é. Diz. Funcional. E permanece na disfunção de o ser porque quem tem a competência de fazer andar os relógios não são as mãos que laboram nos ponteiros. E, se o fossem, seriam máquinas. De pouco valeria falar de sensatez ou de indigência. De pouco valeria… e de pouco vale. Que os queixumes nunca ultrapassam as portas da hierarquia e, quem tem o poder, quer desfruir dele antes que se evada.
E fica no ar esse toque aromático, um tanto pútrido, de uma espera que se faz às portas da mesma casa que nos devia levar, em braços, até ao patamar onde converge excelência, sonho e sensatez. Porque, para que se passem as portas, é preciso que alguém decida. E tome o bravo e ousado ato de mover a mão para assinar e carimbar um papel.
É só silêncio. Uma espécie de plataforma legal. De legalidade questionável. E com o bom senso enterrado, sob fios de uma eterna tapeçaria e mil requerimentos e dez mil lamúrias. Leva-nos. Levemente. Na fluidez de um tempo próprio. De um tempo estático. Onde nada acontece. Mas tudo envelhece. Até a história. E, nessa história que se faz velha, há sempre uma razão. Tudo se justifica. Como é fácil justificar o tanto que não se diz.
É uma espécie de plataforma legal. Que se diz funcional. Disfuncional. E só.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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