domingo, 1 de outubro de 2017

Açúcar no café amargo



Para o meu avô



Ainda me sento contigo à mesa. Puxamos os dois para o canto a toalha que nunca nos fez a vontade e a fruteira. E sentamo-nos. Lado a lado. A toalha é, hoje, a ideia da morte. E a fruteira é a sanidade. Mas não faz mal. Sentamo-nos na mesa do meu pensamento. E continuamos a conversa que deixámos a meio ontem. Sobre tudo e nada. Um pouco mais sobre tudo. Porque não há espaços para vazios quando estamos juntos.
Queres saber de mim. Eu não quero falar sobre mim. E faço café. Em vez de falar. Também queres um. E eu sirvo-to com agrado. Levo o açucareiro para a mesa. Depositas três colheres bem cheias, que fazem estremecer a espuma ligeira do topo, até que disperse. E ficas à espera que assente no fundo o açúcar e que eu te responda à pergunta. Saberás, talvez, a resposta melhor do que ninguém. Bebemos o café. Nunca gostei de falar de mim. Mas tu entendes. Eu saio a alguém. E o café aquece as almas.
De chávenas na mão, olhamos para o líquido. Procuramos respostas. E vejo que levas aos lábios o amargo do café que não mexeste. Mexo o meu mas, neste dia, sabe-me também amargo. Sabe a saudade. Uma saudade intolerante e ausente que tem, no fundo, por mexer, três colheres cheias de açúcar.
Perguntei-te, certa vez, por que punhas tanto açúcar no café, se mal o mexias e o bebias amargo. Respondeste que guardavas o melhor para o fim. Assim, poeta do dia-a-dia, com toda a simplicidade, ensinaste-me para a vida. Primeiro o amargo, depois o doce. Como o trabalho e o sucesso. O esforço e a conquista. A luta e a concretização. A saudade e o reencontro.
Hoje sento-me contigo na mesa do meu pensamento. Puxamos para o lado a ideia da morte e a sanidade. Damos as mãos em silêncio. E, para que as respostas sejam dadas pelos olhos que se quedam sempre na ideia da despedida, eu vou pôr a cafeteira ao lume. E sirvo duas chávenas de café. Uma para ti. Uma para mim.
Exagero no açúcar no café. Mal o mexo. Deixo o melhor para o fim. Primeiro bebo o café. Depois o açúcar. E, no finzinho, bebo a memória que me prende a ti. No final, entre amargo e doce e eternidade, o café sabe a amor.
E é um amor que nos deixa sentar. Na mesa. Esta mesa. Nela, puxamos para o lado a ideia da morte, em forma de toalha. E a sanidade, em forma de fruteira. Partilhamos este momento, repetindo-o, casualmente, sempre que a saudade aperta. E bebemos. Primeiro o café. Depois o açúcar. Depois o amor. Porquê? Porque guardamos o melhor para o fim. E o melhor é isto. Isto que ninguém sabe. Mas que é quente e doce. E meu. E teu. E que te mantém vivo e presente. Explicando-me a vida como quem explica o açúcar no café amargo.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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