terça-feira, 17 de outubro de 2017

As amigas



É volátil. E algo fútil. E totalmente despropositado. Como crianças de infantário, que tendo acesso a trinta bolas azuis, querem sempre aquela que o amiguinho tem na mão. Talvez porque já tenha da sua saliva e das suas impressões digitais. Ou talvez porque dê prazer que o amiguinho não tenha aquela bola azul. Ou, quem sabe, porque o apelo não esteja na bola azul mas nas mãos que a seguram. Lançada ao ar, caindo no centro de todas as bolas azuis, talvez nem se saiba qual era aquela que nos despertava desejo. Ou talvez se saiba, mas já será apenas uma bola, sem nenhum traço de apelo. Acontece. Quando é volátil. E fútil. E totalmente despropositado.
Quando as bolas azuis são olhos e têm partilhas sociais; acompanhadas de uma enunciação do mundo perfeito, da realidade perfeita, do emprego perfeito, do dia perfeito… há um apelo mudo na figura estática e na partilha das palavras. Impele. Apetece. Como um fruto de verão, acabado de arrancar da árvore, fique ferido o ramo que a sustenta ou não.
Toda a gente tem a mais elevada moral. Que se esgota e cuja quebra se justifica na ambiguidade do “tudo por amor”. Mas que amor? Como é fácil amar o que não existe. O que não se conhece. O que não se sabe. É nas lacunas, onde mora só o desconhecido, que se constroem esses amores. Voláteis e fúteis. E despropositados. Com um toque de criança de infantário, que quer aquela bola azul porque sabe que a outra criança a tem.
As melhores pessoas do mundo são as que conhecemos mal. E há uma paixão que é fogo nesse desconhecido. Mas no mergulho em profundidade até ao negro mais escuro de todos os negros da alma, aí reside o amor. Conhecer alguém na debilidade de todos os seus defeitos e sentir um fogo de lareira acesa, alimentada a óleos caros e lenha de pinho, sem fazer contas aos gastos.
E há quem seja. Volátil. Fútil. Totalmente despropositado. Há quem queira uma bola azul que é uma pessoa nas mãos de outra pessoa que, sabe-se lá se não foi ao inferno e voltou. Mas, no conhecimento, algo ambíguo e incompleto, de uma história que é metade da metade da metade que a constrói, parece que o mundo não só é plano, como inclinado para o lado da figura de afeto onde se soma, não a perfeição da perfeição mas a perfeição do desconhecido.
Estima-se que, neste momento, existam, no mundo, 101,8 homens para cada 100 mulheres. Certo que uma percentagem deles serão homossexuais. Mas uma percentagem delas também o será. O que significa, em grosso modo, que existe, por aí, um homem para estas pessoas que insistem na bola azul que já tem mãos em seu redor. Para elas. As amigas.
E, embora seja volátil, fútil, despropositado, há três corações. Quatro. Cinco. Porque se pensa sempre que são casos isolados e nunca são. Batem mil corações na mesma tristeza. E ela também não faz sentido nenhum. Porque se sofre de um mal que não é.
Palavras são só palavras. Faço uso delas. Às vezes como armas. Não sou perfeita. Nunca vou ser perfeita. Mas sou o corpo que se envolve no fim da noite. E o café pela manhã. E o primeiro passo de ajuda na dificuldade. Moderadora de dores. Agente da tomada de decisões e, às vezes, carrasco de força onde só há debilidade. Propostas são só propostas. Palavras são só palavras. E, tirando as que eu digo (ou escrevo), não dizem nada de mim. Dizem muito de quem as esparrama, preto no branco. Dizem muito sobre o que a amizade não é. Nem o amor. Dizem muito sobre ser-se volátil. E fútil. E despropositada.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Nos teus termos



Para a minha companheira Ali,

No primeiro dia, esperavas junto à porta. E deixaste que me aproximasse de ti. Que te depositasse um toque de calor entre as orelhas. Deixaste que o fizesse e, altivamente, levantaste-te com calma, viraste costas, mudaste de divisão.
Estipulámos os termos: no centro das paredes de uma casa que era tua – e ainda não minha – eras tu que ditavas as regras. Cabia-me cumpri-las. E cumpri.
Habituei-me a povoar a sala. Com uma manta sobre as pernas friorentas. E outra ao lado. E não te deitavas ao meu lado. Deitavas-te lá, na outra ponta do sofá. E depois no meio do sofá. Todos os dias. Um bocadinho mais perto. Sempre ali. Nos teus termos. Até que, um dia, encostando o focinho contra a minha perna, te senti os tremores na delonga da felicidade. E fui depositando festas no teu lombo, à medida que te contorcias. Havia um sorriso nos teus olhos.
Nunca precisámos de palavras para nos entendermos. Do teu mau feitio eu li, não só a personalidade intensa, como também a doença que acabaria por se confirmar. Mas tínhamos um pacto, tu e eu, o pacto de calar muitas mágoas com sorrisos e goluseimas de frango ou peixe.
Não eras fácil. Muito longe disso. Ter a casa à minha maneira contigo por perto era impossível. Porquê? Porque não era a minha casa. Era a tua. Nos teus termos. E, de alguma forma, era bom estar em tua casa e servir um pouco destes interesses mal humorados que sempre pagavas, em medidas de amor, de carinho e de companheirismo.
Ficámos só as duas muitas vezes, olhando pelas janelas. Contando flores e partilhando horas como se fossem pequenos tesouros. E, quando não estavas ao meu lado, ficava a ouvir-te o tiquetaquear dos passos pela casa. Um som que fez de banda sonora a tantos e tantos momentos da vida.
Pela manhã, trepavas para as costas do teu dono. Aninhavas-te ali. Uma imagem de doçura, por entre a cama desfeita, com ele bebendo o café e contigo a dizeres bom dia. E, olhando nos meus olhos, semicerravas os teus e abrias de novo. Um “gosto de ti” em linguagem sem voz, que eu repetia, em silêncio.
Foi sempre nos teus termos. E, por isso, nem nunca gritaste por aí que me adoravas, nem eu a ti. Habituámo-nos, simplesmente, a senti-lo, partilhando um segredo. No nosso mau feitio, nunca achámos que alguém tivesse algo a ver com isso.
Ficaste mais doente. Levei-te ao médico e ele tirou-te a doença. E saí de lá a sorrir, na perspetiva de ter a tua companhia por muitos e muitos anos. Mas, não contente com o dano já causado, esse tumor estendeu os dedos até que eles te preenchessem por dentro. E, de súbito, ouvir-te respirar doía como facas no coração. Confirmámos as suspeitas e soubemos. Não tínhamos muito tempo na tua companhia.
Eras forte e sabias o que querias. Ditaste sempre as normas, na casa que era tua. Eras guerreira e tinhas nascido para vencer. Não pude ver-te perder essa batalha contra a doença. E decidi, porque te conheço, cumprir o desejo dos olhos que pediam para não sofrer mais.
Fica-me uma casa vazia. Sem o tiquetaquear das tuas patinhas pelo soalho. Sem o pedido, quase mudo, pelas goluseimas. Fica-me uma casa sem dono. Uma casa na qual as normas adormeceram e as dúvidas se somam, cantando na voz da ausência.
Ficam-me a saudade, em dois beijos depositados sobre o pelo e com as palavras “vai ficar tudo bem, princesa”. Disse-as. Acreditando nelas. E incapaz de olhar para ti, com medo de ceder ao egoísmo que não me tolerarias. Deixei-te ir. Vitoriosa e nos teus termos. Não podia ser de outra maneira.
Fico à tua espera, na dimensão astral. Adoro-te e quero crer que, todos os dias, te vais sentar comigo no sofá. Cada dia, um bocadinho mais perto. Até que a doença me leve também para eu viver pela eternidade. Ao teu lado. Depositando um toque de calor entre as tuas orelhas. Se me deres essa honra. Porque foi e há-de ser sempre tudo nos teus termos.

Até já, Ali



Marina Ferraz


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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Um beijo antes de dormir



Para a minha avó

Batem as nove. Bate a saudade. Bate o desejo de ouvir a tua voz. Um bater incompreensível de ideias. Esbatidas mas constantes. No bater do ponteiro dos minutos e das horas. No bater das nove.
Bate o cansaço. E a vontade de saber que estás bem. Bate o coração. Compassado. Descompassado. Cheio de amor. Batem, no bater das nove.
Bate à porta a noite que se queda. E cai, com ela, um sol que me é destino e passagem, no nascer da lua. Conforta-me a ideia da lua, que é a mesma na distância entre nós, e nos faz presença. Quando bate. A saudade. Pelas nove.
Batem as nove. Bate a saudade. Bate o desejo de ouvir a tua voz. Já se faz noite. Já se faz hora. Toca o sinal da recolha. Toca uma música na rádio. Toca o sino na distância. A anunciar. O toque do amor. Que ecoa nas entrelinhas do nosso encantamento. Que ecoa na vontade da troca de palavras. Batem as nove. Toca o sino. E o telefone também.
Toca o telefone. Nele, a tua voz traz o bater do carinho, feito aconchego. As tuas palavras são cobertores bem puxados junto às orelhas e camas preparadas com cautela. E, na tua voz, toca-me, com um saudosismo inerente, a mão que me afaga a vida e me dá alento para suportar a noite que queda e o dia que vem a seguir. Toca o telefone e tocas-me, com as pontas dos dedos da voz. Há traços de canto na melodia das palavras que me dedicas. Todas as noites. No bater das nove.
Uma canção de embalar. Vem em forma de rotina. No bater das nove. No toque do telefone. Todos os dias. Quando me bate a saudade. E me acautelas o medo dos mostrengos que se escondem nas sombras do meu desassossego. Há amor na tua voz. E ele é luz. E não há sombras quando falas comigo.
Batem as nove. Bate a saudade. Tocas-me na distância da chamada. E ficas perto. Até que o calor do abraço pensado se faz gente e me envolve, mesmo longe. Há um calor que me adentra. Vem de ti. No bater das nove. E fica a rondar, noite fora, abençoando-me as madrugadas.
Nos dias bons. Nos dias maus. Nos dias. Bate. Pelas nove. Esta vontade de te sentir. E vens. Religiosamente. Com a tua voz. E o teu amor. E o teu carinho. Cheia de tudo o que falta ao mundo. Fazes parar o relógio na ternura da tua voz. Ficas próxima, por alguns minutos, na presença quente das palavras. Abraças-me, assim, até aos ossos, até à alma, até ao coração. E ficas dentro dele. Permanentemente. A tempo inteiro. Gosto de te ter lá.
É um amor que me bate no peito o dia todo. Concretizando-se, todos os dias. Com um beijo antes de dormir. No bater das nove.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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domingo, 1 de outubro de 2017

Açúcar no café amargo



Para o meu avô



Ainda me sento contigo à mesa. Puxamos os dois para o canto a toalha que nunca nos fez a vontade e a fruteira. E sentamo-nos. Lado a lado. A toalha é, hoje, a ideia da morte. E a fruteira é a sanidade. Mas não faz mal. Sentamo-nos na mesa do meu pensamento. E continuamos a conversa que deixámos a meio ontem. Sobre tudo e nada. Um pouco mais sobre tudo. Porque não há espaços para vazios quando estamos juntos.
Queres saber de mim. Eu não quero falar sobre mim. E faço café. Em vez de falar. Também queres um. E eu sirvo-to com agrado. Levo o açucareiro para a mesa. Depositas três colheres bem cheias, que fazem estremecer a espuma ligeira do topo, até que disperse. E ficas à espera que assente no fundo o açúcar e que eu te responda à pergunta. Saberás, talvez, a resposta melhor do que ninguém. Bebemos o café. Nunca gostei de falar de mim. Mas tu entendes. Eu saio a alguém. E o café aquece as almas.
De chávenas na mão, olhamos para o líquido. Procuramos respostas. E vejo que levas aos lábios o amargo do café que não mexeste. Mexo o meu mas, neste dia, sabe-me também amargo. Sabe a saudade. Uma saudade intolerante e ausente que tem, no fundo, por mexer, três colheres cheias de açúcar.
Perguntei-te, certa vez, por que punhas tanto açúcar no café, se mal o mexias e o bebias amargo. Respondeste que guardavas o melhor para o fim. Assim, poeta do dia-a-dia, com toda a simplicidade, ensinaste-me para a vida. Primeiro o amargo, depois o doce. Como o trabalho e o sucesso. O esforço e a conquista. A luta e a concretização. A saudade e o reencontro.
Hoje sento-me contigo na mesa do meu pensamento. Puxamos para o lado a ideia da morte e a sanidade. Damos as mãos em silêncio. E, para que as respostas sejam dadas pelos olhos que se quedam sempre na ideia da despedida, eu vou pôr a cafeteira ao lume. E sirvo duas chávenas de café. Uma para ti. Uma para mim.
Exagero no açúcar no café. Mal o mexo. Deixo o melhor para o fim. Primeiro bebo o café. Depois o açúcar. E, no finzinho, bebo a memória que me prende a ti. No final, entre amargo e doce e eternidade, o café sabe a amor.
E é um amor que nos deixa sentar. Na mesa. Esta mesa. Nela, puxamos para o lado a ideia da morte, em forma de toalha. E a sanidade, em forma de fruteira. Partilhamos este momento, repetindo-o, casualmente, sempre que a saudade aperta. E bebemos. Primeiro o café. Depois o açúcar. Depois o amor. Porquê? Porque guardamos o melhor para o fim. E o melhor é isto. Isto que ninguém sabe. Mas que é quente e doce. E meu. E teu. E que te mantém vivo e presente. Explicando-me a vida como quem explica o açúcar no café amargo.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Lava - Usa - Repete



O amor encapsulado. Pré-feito. Lavável. Reutilizável. E com uma nova tecnologia à prova de nódoas. Com toda a comodidade e sem nenhum trabalho. Com entrega ao domicílio. Sem custos adicionais. Nem taxas. Ou com IVA a 6%. Um bem essencial, para todos os efeitos. De luxo, em todos os aspetos, exceto no preço.
Basta abrir a embalagem. É reciclável. Tem um tempo de vida variável. Modo de uso espontâneo. Livro de instruções integrado. Com três palavras apenas. Lava, usa, repete. Em vinte línguas distintas. Num dialeto comum. Com braile. Para os deficientes invisuais. E com imagens exemplificativas. Para os deficientes emocionais.
Lava. Usa. Repete. O amor encapsulado. Venda aberta. Sem receita. Deduções mediante prescrição. Descontos às segundas-feiras. Como o cinema. Imagens meramente ilustrativas. Modelo não incluída no valor base.
Disponível em três modelos distintos e em cinco cores de pantone patenteado. Personalizado mediante avaliação de pedido e com preço sob consulta. Trocas e devoluções por um período de 15 dias. Devolução do dinheiro em caso de insatisfação.
O amor encapsulado. Lava. Usa. Repete. Não tem limites etários nem contraindicações. Adequa-se a hipertensos, intolerantes ao glúten ou à lactose e também a celíacos. Pode ser consumido por vegans ou vegetarianos. Não foi testado em animais irracionais. E, nos racionais, os efeitos foram sempre categóricos, formais e indiscutíveis na medida do expectável.
Tem uma taxa de sucesso de 100%. 101, se considerarmos que transborda adequação mesmo nos aspetos que carecem de teste. Está em vários pontos de venda. Em todos com exclusividade anunciada à porta.
PVP adequado às necessidades de cada consumidor. Maior durante períodos de sobriedade. Descontos mediante índices alcoólicos elevados e acumuláveis com outras promoções em vigor.
O amor encapsulado. Lava. Usa. Repete. Rápido e sem constrangimentos. Dispensa a consulta da versão integral dos termos regulatórios de acordo com a legislação em vigor. Não obedece a normativas da U.E. Uso individual ou fins de partilha. Botão único de ligar/desligar. Duradouro mas descartável.
O amor encapsulado. Responde por outros nomes e normas semânticas. Lava. Usa. Repete. Prazer. Paixão. Loucura. Terminologias infindáveis. Nomes rotativos. Permanência na continuidade das nomenclaturas. Rápido. Simples. Eficaz. A termo.
O amor encapsulado. Lava. Usa. Repete. Esconde no armário. Esquece. Instantâneo, como tudo o que é eterno. Frase feita. Cliché. Sorriso nos lábios de cima. Um asterisco precedendo a inevitabilidade da procura encontrada sem a mínima nuance de imperfeição. Lava. Usa. Repete. Diz que foi amor. O mundo vai anuir. É ambientalmente seguro. Normativamente comum. Perfidamente aceitável. E eu finjo que acredito.



Marina Ferraz


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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Notas sobre o amor incondicional



Amo-te.
E, porque te amo, sei coisas sobre ti que ninguém sabe. Como a cor dos teus olhos quando estás triste.
Porque te amo, sei de cor todas as palavras dos teus silêncios e faço dissertações das parcas palavras que me escondem universos de sobrecarga. Porque te amo, não te obrigo a falar mas insisto em ler-te, feito livro, nos passos e expressões. E, olhando para mim, eu acho que tu sabes que eu sei muito mais do que as conversas nos deixam partilhar por entre a simplicidade dos temas mais vagos.
Porque te amo, amo a sensação dispersa de que retiras de um abraço dado “porque sim”, alento para as mágoas que não dizes. Então, tenho mil abraços para dar, na esperança de que algum te envolva o corpo no local onde sangra essa ferida imaginária que eu apenas imagino.
E, se calha olhar para ti quando estás ausente, vagueando pelas memórias e os sonhos, tentando matar ambos com ideologias ainda sem corpo, eu entendo que, venha o que vier, não existe no mundo uma única nuance que possa roubar de mim o desejo e a vontade intensa de passar contigo eternidades em segundos.
Porque te amo, conheço-te bem os traços da beleza que, começando na pele, entra nos poros e chega até à tua alma e até ao teu coração. Tens um coração dócil, embora sejas fogo. Tens uma alma cautelosa, embora sejas acutilante. E é neles que respiro fundo a sensibilidade meio orgulhosa que me faz crer que fiz parte dessa construção.
Não há. Não existe. Nada. Ninguém. Nunca. Não há o que possa mudar a minha imagem de ti. Porque sou cúmplice até dos crimes que não sei que cometeste. Porque o seria, ainda que soubesse de cor a sua solidez.
Não concordo sempre contigo. Mas estou sempre contigo. E não te largo a mão nem que acabemos as duas no fundo do mesmo abismo. Se cairmos, não faz mal. Temos asas. Tu e eu. Ainda que eu o saiba e tu ainda não. Talvez descubras na queda. Ou talvez uses as minhas. As minhas asas vão bastar, enquanto não abrires as tuas.
Quero que sorrias. E que sofras, também, de vez em quando, porque a dor te acrescenta conhecimentos sobre ti mesma e sobre o mundo que te acolhe. Quero que lutes pelos sonhos. Quero que ames. E que não esgotes o amor em quem não te merece. E, se pelo caminho, amares dez ou vinte ou um milhão de vezes, não tenhas medo… é pior não saber amar do que acreditar no amor, vez após vez. E, um dia, por entre as tentativas e erros do amor, alguém que te respeita e te merece, alguém que não te diminui nem te castra, vai aparecer e ajudar-te. A abrir as asas. Essas que não sabes que tens. E a voar.
Amo-te e tenho orgulho em ti. No talento que te move os passos. Na imagem que te distingue, nos corredores da vida, de tantos quantos pisam flores. No interior onde se espelha o arco-íris. Tenho orgulho em ti. Porque me fazes ser uma pessoa melhor. E me fazes querer um mundo melhor.
Amo-te e sei que não sabes a extensão do meu amor. Amo-te e sei que não sabes que já me salvaste a vida. Amo-te e sei que não sabes que és, também, a vida que me salvaste. Amo-te e tenho, ao olhar para ti, acesso à única paisagem que nenhum homem e nenhum Deus pode destruir.
Há céus e mares. E há os teus olhos. E há um coração no meu peito que bate. Mas não é só meu. É nosso. Incondicionalmente.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Case




Eu quero que ela case.
Quero que ela case com os sonhos e com a vida. Que deles faça ponto de chegada. Que deles faça ponto de saída. E que vá, apaixonando-se aos poucos por cada uma das estrelas. Cabem-lhe todas no peito. Porque coração que não transborda amor, não ama o suficiente.
Ocasionalmente, eu quero que ela perca o “C”. Quero que ela “ase”. Quero que se liberte das Contrariedades, das Correntes, das Chamadas, do Choros, das Companhias Castradoras que a impedem de voar. Quero que ela perca o “C”. E que “ase”. Como quem tem asas. Voando por aí.
Quero que ela não se perca “CÁ”. Que o largue também, para não sobrar um “SE”como pergunta eterna. Perder-se cá, seria ficar, nos lábios com muitos ses. Não! Que não haja “se” na vida dela. Em vez disso que “ase”, que case com a vida e com o mundo das possibilidades que o mundo abre a quem vai.
Se, pelo caminho, perder inícios e terminações, quero que ela seja sem “C”, sem “E”. Quero “as” melhores coisas, a abrirem portas às suas asas gigantes, tão mais pequenas do que o coração onde cabe amor para todas as estrelas do céu.
Sim, eu quero que ela case.
Quero que, na sua simplicidade, ela encontre caminhos seus, onde os espinhos sejam desfeitos em rosa. E a rosa seja aromática e plena, crescendo silvestre na poesia dos seus pensamentos mais loucos.
Casa, pequena, casa. Mas não com o “C”. Usa essa asa fechada atrás de ti. Deixa que abra. Letra a letra. A. Letra a letra. S. Letra a letra. A. Vai. É uma capicua de palavras. E um mundo que se repete no pedido mudo para que não te percas aqui.
Sim. Eu quero que ela case. 
Com o infinito onde moram as estrelas.
Com o coração onde o amor transborda.
Com o sorriso das possibilidades que moram no centro de uma paixão pela vida.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Adeus



adeus.
uma palavra que surgiu por um momento,
a adaga que arrancou um sentimento
destes braços que eram teus.

adeus.
uma expressão que, de alegre, foi sofrida
que, de tanto me matar, me deu a vida,
no instante de segredos só meus.

respira
o ar do universo é sublimado
pelo traço nevoento do passado
onde de um amor nasceu a ira.

e se dói o aroma a despedida,
não dói mais que a certeza que hoje trago:
o saber deste amor cruel e vago
que, de tão pouco ser, foi uma vida!


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A dor que senti



A dor que senti lá atrás
Serviu-me de emenda
Aprendi a tratar a mágoa
Com respeito:
Abro-lhe as portas do peito,
Sorrio ao vê-la chegar.
Não sei quanto vai ficar
E, porque não sei, aceito.
Dou-lhe mesa, dou-lhe leito
No aconchego perfeito
De quem não a quer expulsar.

A dor serviu-me de emenda:
Aprendi que sou capaz
De andar com o peso alheio,
Arrastando as coisas más.
Trato a mágoa com respeito
E até lhe quero bem:
Foi nela que adormeci
Chorando em noites sem fim
Quando não estava ninguém.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Acho que prefiro a solidão



Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser crua, mas não é cruel.
Dar a mão ao vento ou dá-la a alguém que a aperta, que a larga. Que a recebe e a usa como guia na cegueira. Só. Sem que outro motivo se encontre nesse ato. O de dar as mãos. Seguir o vento. Antes o vento. Até ao abismo que leva ao mar. Até ao mar que não fere a alma.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ferir mas não infeta.
Sentir o corte. O frio cortante da água desse mar. E dar o corpo à sensação. Do toque das águas. Ou dá-lo na cama. Ao calor. De abraços que viram correntes e nos arrastam para baixo. Sempre. Afogar no fogo e morrer quando a perda de fôlego se transforma em sufoco e nos impede a vida. Uma dor que é oceano.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode doer mas não massacra.
O olhar do sol que nos faz rasgos argilosos na alma. Sentir o moldar do tempo, feito de barro, nos nós dos dedos que se apertam no vazio. Ou o olhar de alguém que um dia nos vê mundo e, no outro, nos vê no mundo. E depois nem nos cantos concretos do nada ou nas ilusões da plenitude.
Acho.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode matar, mas não tortura.
Sonhos cadentes nas estrelas que se alinham pelos traços da mão onde a sina cigana se leu. Eternidades de incontável desespero, que é galáxia sempre em torno de nós. Um desapego que se faz universo. Ou universos nas mãos do amor que se torna sonho maior. Alfa. E destrói o que fica fora dos meandros do seu controlo afetivo. Efetivo. Um medo que não se diz e que tem pernas e braços e lugares que nunca serão visitados. Além dos limites da vida. Além dos limites do tempo.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser triste, mas não é miserável.
Ela pode ser mácula mas não é rasgão.
Ela pode ser linha, mas não é rasura.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser sozinha. Mas não é só.

Marina Ferraz


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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

(A)mar


Mar. Como a-mar. Um gelo que se desfaz e que tolhe sentidos. Que olha nos olhos e os mareja. De mágoa. E sal. De maresia.
São olhos marejados. De mar. Como a-mar. Um esmorecer do tempo e dos sentidos. Como vento. Como sombra. Como sobra.
Olhos magoados. Mágoa que se faz dor e mata. Mar. Maré. De ilusão poente, sob os raios do final da vida.
Mar. Como a-mar. Há mares no teu nome. E identidades frouxas entre os teus dedos por não os dares a ninguém. Como se os traços das mãos fossem desenhos criados pelos depojos do tempo e quisesses lê-los de trás para a frente, numa demanda por ouro e especiarias.
Mar. Como a-mar. Só que com ondas que se fazem espuma em vez de ansiedade. E agruras que dispersam. E algas em vez de alguéns. Algures. Além. Uma espécie de céu que se reflete e é só chuva e que se liberta apenas para se prender de novo nos enleios de insanidade.
Mar. Como a-mar. Uma infinitude desfeita. Que embate contra margens de concreto e nelas causa desgaste. O erodir da alma sob correntes frias de desolação. E nelas nadam promessas que não serão cumpridas, boatos que não serão verdade e opiniões que ninguém pediu. São corais secos, empetrecidos e cinzentos, que abrigam memórias e desalentos de tempos e histórias e tempos sem história e histórias sem tempo.
Mar. Como a-mar. Olho. Pergunto quem é. Mas não sei quem sou. E, como não há resposta, fico-me a perguntar se, lá no fundo do mar, há um espaço para mim. Para a-mar. Como em mar. Mas feliz.

Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Em nome da nossa Mãe




Caro Senhor Presidente,

Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. E afaga-me o rosto com a mão do vento, assegurando-me de que vai ficar tudo bem. Na sua suavidade primaveril, ela vai dizendo que nos ama. A mim e a si. E a todos os outros filhos, de forma igual.
Na noite, ela ainda me embala com a mesma canção lunar que também a si chega, sem cobranças nem palavras de ódio, nem ressentimentos. E, nos dias de sol, ela ainda nos beija a pele, dando-nos a dádiva dourada da felicidade estival.
A nossa mãe não deixou de o amar. Ainda é dela a respiração que lhe permite subir aos tronos onde se cultivam guindastes e se semeia betão. Ainda é dela o ar que faz vibrar as cordas vocais, permitindo que chovam torrentes de detrito orgânico que não servem nem os fins da fertilização dos campos agrícolas.
Ela não deixou de o amar. Mas eu disse-lhe: «Mãe, este homem que te ofende e te destrói não é meu irmão e não o amo». Pacientemente, ela fez-me olhar a distância. Perder as contas das estrelas e dos rasgos de luz no mar. Esquecer a mágoa nas clareiras das árvores. Aprender a cantar juntamente com as cotovias simplesmente porque amanhece. E, abrindo-me os olhos com uma suavidade só sua, respondeu. «Não semeies ódio, esperando que te cresça amor». E eu aprendi, aos pouquinhos, com uma paciência muito menor do que a da nossa mãe, a não o odiar.
Não lhe vou pedir que saia da sua mansão de pedra branca para visitar esta mãe que tanto o ama… porque sei que, provavelmente, lhe veria apenas o potencial rentável na destruição, qual filho que não quer mais do que herança que vem depois da morte. Mas escrevo, ainda assim. E faço-o porque a minha geração terá filhos, e os seus filhos terão filhos que serão também pais, mais tarde. E nesta história de nascimentos e vidas, a nossa mãe poderá começar a sentir a revolta que as suas mãos plantam – com ódio – esperando, não amor, mas lucro.
Não vou dizer para abrir os olhos. Não. Para quê? De olhos abertos, ainda será cego, no encadeamento desse ouro que não vai levar para a cova. Mas vou dizer que sei que, no final, no derradeiro final, vai cumprir o desejo da nossa mãe.
Senhor presidente. A terra que governa, têm-a por sua. Mas não o é. Não é a Terra que nos pertence. Somos nós que pertencemos à Terra. E a mãe que nos dá vida e nos abarca, recebe-nos num abraço que nos torna, também a nós Terra. Havemos de a fertilizar, com a nossa carne e os nossos ossos. Havemos ser unos com ela e uns com os outros.
Senhor presidente. Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. E gostaria de dizer que ela o condena. Mas não. Ela não precisa de si, nem do seu esforço, nem da sua redenção. Por mais que lhe tire, de forma abrupta e sem consideração, ela continuará a dar, sem pedir nada em troca.
Senhor presidente. Hoje planto palavras onde não quero silêncios. E falo em nome de uma mãe cuja voz soará muito depois de não se ouvirem os seus gritos no púlpito. Escute. Está em todo o lado. No sopro do vento. No toque da terra. No nascer do sol. E cada dia que nasce é uma vitória. Porque ela, que só lhe quer bem, fica um passo mais perto do abraço que, em medidas ilógicas, hoje não pode dar. Aquele abraço final que se dá na terra, à medida que nos arrefece o corpo e nos vinga alma. Aquele abraço que se dá quando nós próprios retornamos à origem e nos tornamos mais ricos do que a ganância humana.
Senhor presidente. Escrevo em nome da mãe. Da Natureza. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. Mas sei que anseia por o encontrar, para esse abraço final que vos tornará unos. Anseia. E todos nós, senhor presidente, talvez com um pouquinho mais de rancor no coração, ansiamos o mesmo.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O umbigo



Quando eu era pequena, os meus pais diziam-me, às vezes “não tens umbigo”. E eu, muito aborrecida, lá puxava para cima as camisolas interiores, exteriores, casacos e mais o que houvesse para puxar, apenas para provar que, no centro da minha barriga, estava esse buraquinho que eles diziam que não tinha.
Ser criança tem destas coisas.
De alguma forma, nessa fase, eu não dizia que tinha umbigo. Mostrava-o. Talvez porque a inteligência infantil nos faça saber que os adultos não acreditam em nada que não vejam. E, ao mostrá-lo, vinham risos e cócegas e mais risos. Que me distraíam daquela frase que me perturbava. “Não tens umbigo”.
Ser criança tem destas coisas.
Cresci a saber que o tinha – o umbigo. De alguma forma, assumi que, como eu, toda a gente tinha um, embora não fizesse muito caso disso. Era natural e pouco importante. Como quase tudo, na fase em que os sonhos – tão reais como o umbigo – se manifestam e traduzem em momentos de ilusão, fomentados pela televisão e aniquilados pelas escolas.
Ser criança tem destas coisas.
Talvez por não pensar muito nele, o umbigo nunca me incomodou. Até começar a perceber que ele podia, muito bem, ser o centro. Não o meu centro. O centro do mundo. E que, da mesma maneira, o umbigo dos outros podia ser, para eles, a mesma coisa.
Descobri com facilidade que, para muita gente, é mesmo assim. Nunca ninguém lhes tinha dito que não tinham umbigo. E, talvez por isso, exibiam com frequência e por necessidade demente essa parte de si.
Algumas pessoas que conheci passavam tanto tempo a olhar para o próprio umbigo que se esqueciam de tudo o resto. Até de quem estava perto. Até dos sonhos que deviam ter cultivado. Esqueciam. Olhavam apenas o próprio umbigo, com uma fascinação tão grande que era como se não soubessem antes que ele estava ali.
Encontrei dessas pessoas nas escolas, é verdade. Mas também no trabalho. Também nas filas dos supermercados. Até mesmo na tela da televisão, principalmente nos canais de discussão política.
Um verdadeiro programa do reino animal, com programação alargada e espetáculo ao vivo em cada recanto da rua. As pessoas fazem um reality show dos seus umbigos e é para eles que olham a tempo inteiro. Às vezes, sem mesmo precisarem de levantar as camisolas interiores e exteriores e os casacos. Descobrem-no e fascinam-se com ele. Torna-se um vício. Olhar para ele. E só.
Incapazes de viverem sem esse amor profundo que desenvolvem pelo próprio umbigo. Que, provavelmente, antes nem sabiam que tinham, as pessoas dedicam todos os seus passos ao mesmo. E todas as justificações são feitas em torno dele. Do umbigo.
Ser adulto tem destas coisas.
Fico feliz que me tenham dito que eu não tinha umbigo. Tornou-me consciente de que o tinha e livrou-me da necessidade de olhar constantemente para ele. Às vezes olho. E, num ou outro momento, também faço dele o centro do mundo. Mas não é sempre. Porque aprendi, em criança, que, provavelmente, não era só eu que tinha umbigo. E que o umbigo dos outros devia ser como o meu.
No olhar que às vezes lanço sobre o meu umbigo, sinto que perco paisagens do mundo e oportunidades. Então, faço por não olhar muitas vezes só para ele. Mas, quando os olhos me largam esse ponto epicêntrico da barriga, o cenário é simples: está toda a gente a olhar para o próprio umbigo.
Um fascínio que não se quebra com a constatação de que ele existe. O umbigo. E que move as pessoas. E que toma decisões pelas pessoas. E que faz as pessoas viver em torno de uma coisa só. O seu próprio umbigo.


Marina Ferraz


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Passos retos


Ele deu passos retos. Como lhe haviam ensinado os pais que, sendo gente sem posses, eram ainda assim exemplo nas teceduras da honestidade. Acreditara nas palavras que tinham ensinado, sempre em sotaques campestres e meio perdidos na formulação das ideias. "Faz o bem e bem te virá".
Ele deu passos retos. No dia de pagar as contas, o recibo sobre a mesa indicava que tudo se saldara. Mesmo no café usual, se acaso esquecia a carteira, nunca pedia fiado. Fazia os quilómetros que o separavam da casa, fizesse chuva ou sol, a pé, para ir buscar os cêntimos que lhe tinham faltado e, no regresso, deixava ainda a gorjeta em agradecimento pela compreensão demonstrada pela demora.
Ele deu passos retos. Nas caixas dos supermercados cedia passagem, não só a idosos, grávidas e deficientes. Cedia passagem à senhora que olhava para o relógio com medo de perder os transportes e à adolescente que levava apenas um snack para o lanche da manhã. E, chegando junto do funcionário desagradável, perguntava como ia a vida, esperava resposta e deixava, juntamente com o pagamento, duas palavras de alento para o dia.
Ele deu passos retos. Se ao passar na rua via no chão um papel, logo se curvava para o apanhar e o depositar no balde do lixo e, se acaso sabia que alguns metros mais à frente havia um contentor de reciclagem, avançava para ele, colocando com cuidado cada despojo no lugar que lhe cabia.
Ele deu passos retos. Quando chegava ao prédio, se acaso a empregada tinha acabado de passar esfregona, aguardava um pouco que o chão secasse. E nunca lhe dizia que era por isso. “Pode entrar, senhor Eduardo!”, mas ele não entrava. Dizia que aproveitar o sol lhe fazia bem aos ossos e aproveitava por perguntar à Dona Lurdes pelos filhos e os netos que moravam longe, na Alemanha. E ela sorria com os olhos e mostrava fotografias mal tiradas e amarrotadas que trazia no bolso do avental.
Ele deu passos retos. Um dia, andando na rua, encontrou um anel de diamante. Pensou que alguém estaria triste por ter perdido um anel de aspeto singelamente valioso. Desviou-se do seu caminho para passar na esquadra. Entregou o anel. O agente pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o chefe. O chefe pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o superior do chefe. Pediu que aguardasse. Aguardou. O anel tinha sido roubado. Disseram. Pediram que contasse a história. Contou. Uma vez. Duas. Três vezes. Acusaram-no de roubo. Disseram que deveria pagar uma coima ou que o tomariam em custódia. Não tinha dinheiro para a coima. Encarceraram-no.
Sentado na cela de paredes lisas, ele contou os dias. Traços retos. Quatro a quatro, cortados. Muitos. À espera da justiça. Cada um dos seus passos era agora um traço. E mais um, que fez sobre as palavras dos seus pais: "Faz o bem e bem te virá".
Era uma frase sábia mas fora de tempo.
E não havia mais tempo.
Esgotaram-se os passos.
Esgotaram-se os traços.
Esgotaram-se os dias.


Marina Ferraz


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terça-feira, 18 de julho de 2017

Número e medida



Tenho mãos. Elas são garras. Tenho feito, com elas, poemas e cicatrizes. Em igual número e medida, para que não pensem que sou gente e não digam que sou monstro. Mas, olhando para as minhas mãos, quase todos viram o monstro. Tu não. Tu viste gente.
Tenho olhos. Eles são balas. Tenho feito, com eles, apreciações do mundo e indignação. Pousando-o sempre no concreto das coisas e fechando-os sempre para sonhar. Faço-o para que não pensem que sou toda fantasia e não digam que finco no chão os pés que pisam gentia. Mas, olhando para os meus olhos, quase todos viram a mágoa. Tu não. Tu viste o Reino dos Sonhos, Quimera, pedras com feridas e fadas.
Tenho lábios. Eles são pedra. Tenho feito, com eles, frases de apreciação e críticas vorazes. Em igual número e medida, para que não pensem que sou doce e não digam que sou ácida. Mas, olhando para os meus lábios, quase todos viram o azedume. Tu não. Tu viste o nascer de um beijo, frutado e untado a mel.
Tenho pés. Eles são vento. Tenho feito, com eles, viagem que me levam às pessoas e corridas que me levam para longe delas. Em igual número, é verdade, para que não digam que vou sempre e não pensem que me quedo, estática, num lugar só. Mas, olhando para os meus pés, quase todos viram a partida. Tu não. Tu viste raízes e asas.
No centro de tudo o que és, dou por mim a querer fugir. Dos teus olhos. Desses que vêem o melhor de mim e não se assustam com o pior. Tentei fugir da loucura dos teus olhos. Que me olham. E me amam. E me acolhem. Ainda que as mãos sejam garras, e os olhos sejam balas, e os lábios sejam pedra e os pés sejam vento. Tentei ir. Mas batalhaste. Lutaste. Por mim. E bateu forte no peito, como a saudade, mas em forma de gente. Em forma de monstro. Em forma de nós.
Tenho coração. Ele é espada. Tenho feito, com ele, cortes irreversíveis e nomeações reais. Não em igual número. Não em igual medida. Matei muitos. Distingui um. Tu. Porque nunca ninguém me viu o coração. Mas tu viste. Porque os outros me fizeram rir ou chorar, mas nunca ambas. E porque és o único que consegue arruinar-me a maquilhagem com beijos e lágrimas e, ainda assim, fazer-me sentir a mulher mais bonita do mundo.
Tenho coração. Tinha coração. Tive coração. Ele era espada.
Hoje é teu.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 11 de julho de 2017

Les étoiles



Ele costumava chamar os meus olhos de “Les étoiles”. Dizia que eles cintilavam, de uma forma muito própria, no centro da escuridão da vida. E queria ser astrónomo, para poder olhar as estrelas eternamente. Essas dos meus olhos, aos quais chamava “Les étoiles”.
Passei muitas noites com as minhas estrelas presas no céu, ao lado dele. E apontávamos, rindo, as imagens imaginárias que as outras estrelas – as que não eram olhos - formavam, em pontos picotados no centro das noites sem luar.
O meu universo virava-se do avesso. E dava por mim inebriada pela incandescência solar de um desejo que ali nascia, mesmo debaixo do véu negro do céu, à medida que “Les étoiles” se fechavam para nos beijarmos.
Amanhecíamos. Eu e ele. E a rua. Algures, no centro da cidade poluída, encontrávamos carreiros de noite, onde idealizávamos um planeta sem pessoas, uma galáxia sem medos, um mundo só nosso. E ele falava do brilho dos meus olhos, nesses planos de utopia, tecidos finamente numa tela de irrealidades. “Les étoiles”. Uma exclamação que virava vento, partia e regressava com beijos nos lábios mornos do Verão.
Cada passo foi um ano. Mas poucos passos demos, nesta demanda de olhos postos no céu. Porque criávamos raízes no solo infértil de um mundo que gira em torno de uma única estrela, onde as pessoas olham muito mais em frente do que para cima e onde o brilho do sonho se troca com facilidade pelo concreto baço e pardacento. “Les étoiles”.
Continuei a olhar os céus. Nas noites sem lua. E a apontar desenhos nas estrelas. Eu dizia ver castelos e borboletas. Ele já não as via. Olhando o céu e esquecendo os meus olhos, ele dizia ver somente uma coisa. “Les étoiles”. E, com o tempo, deixou de se deitar ao meu lado para as ver. E, com o tempo, deixou de me olhar nos olhos. E, com o tempo, deixou de aparecer.
Ele costumava chamar os meus olhos de “Les étoiles”. Dizia que eles cintilavam, de uma forma muito própria, no centro da escuridão da vida. Quando foi, deixou-me o olhar negro. Levou “les étoiles”.
Hoje, as estrelas não cintilam.
As estrelas choram.


Marina Ferraz


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terça-feira, 4 de julho de 2017

No metro



A mão dele resvalou levemente. Acidentalmente. Escorregando pelo metal e encontrando a dela. Um toque envergonhado de segundos. Podia ser uma história de amor.

Manhã. Aquela hora de sol erguendo no horizonte e claridade a doer nos olhos que querem dormir. Avançamos todos para o subterrâneo. Como autómatos coordenados. Os nossos passos ganham um ritmo frenético, à medida que rugem os motores lá fora. E entramos na carruagem, onde se espremem e entalam pessoas, numa proximidade que, de tão indesejada, se torna doentia, repulsiva.
Lá nos encontramos todos, os desconhecidos. Tentamos olhar para um lugar qualquer onde não exista o risco de olhos encontrarem olhos. Não queremos ver, não queremos ouvir. Fica mal olhar. Então, enquanto metade se prende nos ecrãs do telemóvel ou faz chamadas desnecessárias à família inteira, a outra metade, de auriculares nos ouvidos, ouve música e agita levemente os cabelos mais ou menos penteados.
Ele entra. Devagar. Com a cadelinha simpática, que dá chicotadas leves nas pernas dos viajantes. Deixa-se guiar por ela. Fica ao meu lado, agarrando a barra de metal. Simpaticamente, a cadela cumprimenta-me. Noto que parece sorrir, à medida que me cheira de alto a baixo, tentando perceber qual a percentagem de humana e qual a percentagem de gato. Chega à conclusão de que sou um híbrido. Aceita-me assim e lambe-me a mão.
A senhora da frente olha para mim e ri-se do interesse da cadelinha no meu cheiro. Sorrio de volta e deposito no focinho da cadela uma festa de saudação. Só ela me cumprimenta, no metro cheio de gente. Cumprimentar é um ato irracional, como todos sabemos, aparentemente. E, de súbito, com olhos vagos e perdidos no infinito invisual, ele pergunta “aqui ninguém a pisa?”. Asseguro-o de que não. “Está segura entre nós”, ele sorri em resposta.
Como não vê, não precisa de se preocupar com o local onde lhe cai o olhar. Mas noto que os outros evitam olhá-lo, ali de pé, no metro, ao meu lado. Talvez tenham medo de que o olhar lhes fira a culpa de não se erguerem para ceder um lugar a quem, de direito, deveria tê-lo. E eu vou fazendo festinhas à simpática acompanhante de quatro patas, até que, num pedido meigo do dono, ela se deita aos nossos pés e ali permanece, sossegada, com um rabo dançante.
O metro travou numa estação. Quando o fez, a mão dele resvalou levemente. Acidentalmente. Escorregando pelo metal e encontrando a dela. Um toque envergonhado de segundos. Podia ser uma história de amor. Ele soltou um “peço desculpa”. Envergonhado e simpático. De olhar laço e perdido. Ela moveu a mão, como se o toque fosse um choque elétrico. Tinha auriculares nos ouvidos. Não deverá ter escutado. Se ouviu, não respondeu. Não o olhou. Limitou-se a afastar do toque.
Questionei se ela seria tão surda como ele era cego. Se seria tão cega como ele. Mas o metro parou de novo, sem confirmações.
Saímos na mesma estação. Ele foi, com a sua melhor amiga a abrir caminho e comigo atrás, em passos que não tentaram acompanhar a minha pressa. Subiu pelas escadas e fui com ele, em silêncio, até o ver passar as portinhas automáticas para a rua. Não sabia, sequer, se ele notava que eu o fazia. Não importava. No final, a cadelinha olhou para mim mais uma vez. Parecia sorrir. Ele também sorria. E eu. Mas não trocámos mais palavras.
A cegueira dele parecia-me ver-me melhor do que a multidão. E, pelo menos, não éramos surdos. Talvez por isso, nada havia que precisasse de ser dito.
Além disso, no centro do cinzento silencioso do asco humano, tínhamos o cumprimento mais simpático do metro. Talvez do mundo. Seguro entre nós. Para que ninguém o pise.



Marina Ferraz


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terça-feira, 27 de junho de 2017

Não te deixo morrer



Não te deixo morrer. Porque te amo. Calar a voz que me une a ti seria cortar os laços. Não os corto. Por mais que digam que é largando a imagem que se faz futuro. Não te deixo morrer. Porque te amo.
Dou o teu nome às estrelas. E às flores. E aos poemas. E sigo, passo após passo, nas pedras cinzentas das ruas que também te têm. Dou o teu nome a essas ruas e a essas pedras. Pouco importam os governadores e heróis que lhes marcam morada. Pouco fizeram pelo mundo. Nada fizeram por mim. Amo-te. E, por isso, não. Não te deixo morrer.
Fico a imaginar que o teu próprio conselho me diria: “vai, deixa-me e sê feliz.”. Mas eu sempre fui teimosa, irreverente, cheia de mim. Não vou! Ou, se for, levo-te comigo e dou o teu nome a outras ruas e outras pedras. Não te deixo. Não posso deixar-te e ser feliz.
Há cânticos na voz dos monges etéreos que regem o tempo. E o meu é cada vez mais escasso. O teu é eterno. E, juntos, somos ponteiros dissidentes, que insistem em andar de frente e para trás, sem cuidado, conforme lhes aprouver.
Tenho malte nos lábios que sequei de ideologias e conselhos dados sem que ninguém pedisse. Fiz mais mal do que bem na vida e a alma é mácula e sopro e descoberta. Fiz muito mal na vida. Matei e esqueci muita gente. Alguns, matei-os ao esquecê-los. Outros, matei-os porque os esqueci. O esquecimento é morte. Pior que a morte, talvez.
Ouve. Tu não. Tu és a luz que me faz livre e me sustenta. Não te deixarei morrer. Porque te amo. Não hoje. Não amanhã. Não até que seja eu a ser esquecida nos meandros do pensamento de alguém.
Mas enquanto houver uma folha, ela vai ter-te em memória, sejas fantasma de caligrafia ou impressão. Preto no branco. Branco no preto. Declarações que te façam sobreviver no centro da efemeridade deste mundo cada vez mais débil e insolente.
Dou o teu nome à tinta e ao papel. E à mão que escreve fora de mim, sem que eu pense no que faço. Dou o teu nome aos olhos de quem lê. E às suas lágrimas. E aos seus sorrisos.
Não te deixo morrer. Porque te amo. E é porque te amo que acontece o tecer da imortalidade. Ser eternamente jovem é criar laços que perdurem nos lábios alheios. Ser eternamente jovem é ter alguém que nos conte a história e nos faça estrela, rua, pedra da calçada.
A memória é a forma mais peculiar de manter alguém vivo. Frequentemente mantendo vivo apenas o melhor. E é ela que diz: Não te deixo morrer. Porque te amo.
A declaração mais pura de amor nasce na semente que repele o esquecimento. E, porque não esquecemos, sabemos que é amor. E como não podemos dizê-lo, damos nomes às estrelas e às ruas.
Insistimos.
Não.
Não te deixo morrer.
Porque te amo.
E, de repente, dizemos. As palavras proibidas, sem querer.
Porque te amei. Porque te amava.
E recomeça tudo… outra vez.


Marina Ferraz


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quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sem mala



Se vais amá-la, vai sem mala.
Sem nenhum peso que te atrase
Ou que te arrase
Ou que te arraste
Se vais amá-la, vai sem mala.
Deixa a dor e a memória
Não leves glória.
Não leves história.
Se vais amá-la, vai sem mala.
Sem artifícios para mostrar
Nem anéis para dar
Nem promessas de encantar
Se vais amá-la, vai sem mala.
O que és deve bastar
E se não lhe chegar
Faz a mala, não a podes amar.

 Marina Ferraz



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