quinta-feira, 24 de maio de 2018

De copa a copa




“Uma árvore, desde que localizada a uma distância entre copas de quatro metros de outras árvores (…), pode ser mantida.”

- Ana Fernandes, Jornal Público
(sobre a lei para limpeza de matas de 2018)



Hoje, a chuva que cai, magoa. E o sol que brilha não me aquece. Hoje, eu sou mais sombrio que a minha sombra. E ela? Ela permanece. No chão. Inerte. Ao lado desta sombra que espalho e odeio. E ninguém me pergunte porquê.
Sinto seiva nas veias de mim, a correr livre. E o vento a soprar levemente, passa-me por entre os dedos. E continuo de dedos erguidos ao céu. Pergunto eu porquê. Não quero saber a resposta. Sei a resposta. Tudo ao mesmo tempo.
É fácil dizer que amamos alguém quando esse alguém já não está. Mas o meu amor, este amor que honrei por séculos, não é um amor que se explique com os traços da morte. Ao lado deste meu amor, eu lutei contra o fogo e contra a água. Suportei as maiores tempestades. E todas as pestilentas infestações. E todas as secas. Ao lado deste meu amor, eu suportei os cunhos da igualdade e os da diferença. O meu amor sobreviveu a tudo. E era para ser eterno. Milenar, no mínimo. Até vir a provação que sempre nos condena. Aquela que nos abate. Aquela que nos sufoca. Aquela que nos afasta. E se ri depois.
Mas a minha história não começa no final. A minha história começa há muitos anos atrás. Séculos. No tempo em que eu não passava de semente e ela também. Lançadas, ao acaso sobre a terra, deixadas para apodrecer ou vingar, consoante a vontade dos Deuses. Caímos lado a lado. E não o soubemos. Até pormos um olho fora da terra e sacudirmos os seus grãos das nossas cabeças. E, quando o fizemos. Como explicar? Havia flores e nuvens brancas a sarapintar um céu azul. E havia um rio a correr perto. E havia pontos mágicos de poeira dourada no ar. Mas não vimos nada disto. O que vimos, de imediato, foi o toque, meio verde, meio envergonhado, um do outro. Senti que a seiva me ardia e podia ter dado um pulo logo ali. Mas não. Éramos apenas brotos. Ainda tão verdes. Ainda tão pequeninos. Olhámos um para o outro. Fizemos uma espécie de saudação, promovida pela aragem. E soubemos, sem palavras, que havíamos de estar sempre lado a lado.
Fomos crescendo juntos. Às vezes, ela acordava depois de mim. E eu olhava para ela. Primeiro moça, de tronco estreito e folha parca; mas imponente quando os anos de donzela deram lugar à firmeza de raízes fundas, de um peito cheio, de um espreguiçar constante na direção do céu. Um dia, ousadia minha, espreguicei-me também. As nossas mãos tocaram-se. Achei que era um instante. Mas ela enlaçou-se em mim. E, de ramos enlaçados, num abraço de madeira e verde, unimo-nos assim. E eu disse “para sempre”. E ela repetiu “para sempre". E o amor tomou forma. Os anjos honraram este amor. Na união das nossas mãos, fizeram ninho. E todos os anos nasciam novos anos, que ora piavam, ora comiam das bocas das mães, ora tentavam voar cedo demais.
Ela emocionava-se com os pássaros. Os seus eternos anjos. Contava-lhes histórias sobre as criaturas que lhes serviam de alimento e da forma como, junto aos seus pés, tantas rastejavam. Estas histórias ajudavam a manter os pequenotes no ninho e impedia-os de tentarem voar antes dos ossos se rechearem de ar e as asas de penas. E quando a mãe anjo voltava, agradecia. E ela ria. Estendia sempre mais as suas folhas para proteger do calor a penugem das pequenas crias. Era, também ela, mãe daqueles anjos. E eu aprendi a ser pai deles, apenas porque a amava.
Um esquilo, roubava-me ocasionalmente uma bolota. E corria para os braços dela. De cabelo puxado, resmungão, eu atirava palavrões e ameaças. Era ela que defendia o pequeno, dando-lhe abrigo num buraquinho do seu peito. “Vá lá, tens tantas, não sejas invejoso!”. Sim. Eu amava-a. E era, em parte, porque ela me ensinava a amar, não só o seu semblante, mas também os pássaros, e os esquilos ladrões, e o sol e as estrelas.
Vieram tempestades. E incêndios. De mãos dadas, aceitámos que morreríamos juntos. “É desta, meu amor.”, dizia-lhe eu. E ela respondia. “Agarra-me só a mão. Vai ficar tudo bem.”. E a tempestade parava. E o incêndio era apagado. Deixavam à nossa volta, com frequência, um rasto de destruição negra. Mas poupava-nos. Porque darmos as mãos era um segredo com milénios, que tornava mágica a partilha da seiva. E nos permitia continuar a dar abrigo aos anjos e aos esquilos do mundo.
 Até ontem, essa magia bastou. Para podermos amar-nos. Durante séculos e até ontem, foi suficiente. Mas ontem, vieram os homens. E as suas serras. E as suas carrinhas. E as suas palavras. Assustaram os pássaros e os esquilos à chegada. Assustaram-nos a nós também. Mas, de raízes postas na terra, a fuga não é possível. E eu senti. Disse-lhe. “É desta, meu amor”. E ela respondeu. “Agarra-me só a mão. Vai ficar tudo bem.”. Mas fechou os olhos.
Um dos homens disse. “Olha estas.”. E o outro respondeu: “quatro metros de copa a copa, mas basta uma!”. E o primeiro respondeu, “deixa o carvalho, então, os pinheiros dão mais problemas”. Ela entoou um cântico antigo, até cair. Deixou que a mão deslizasse da minha com suavidade, deixando para trás algumas folhas secas. Tombou. E eu quis fechar os olhos para não ver cada instante da sua tortura. Mas não consegui.
Deixaram-na ali. Aos meus pés. Cortaram-na em pedaços. E deixaram-na. Aos meus pés. O amor da minha vida. Aos meus pés. E, agora, quem vai proteger os esquilos? E, agora, quem vai contar histórias aos pardais? E, agora, quem vai dar-me a mão?
Ao lado deste meu amor, eu lutei contra o fogo e contra a água. Suportei as maiores tempestades. E todas as pestilentas infestações. E todas as secas. Ao lado deste meu amor, eu suportei os cunhos da igualdade e os da diferença. O meu amor sobreviveu a tudo. E era para ser eterno. Mas, hoje, a chuva que cai, magoa. E o sol que brilha não aquece. Hoje, eu sou mais sombrio que a minha sombra. E ela? Ela permanece. No chão. Inerte. Ao lado desta sombra que espalho e odeio. Porque a amo. E ela não está. E a razão pela qual não está é porque ousámos dar a mão… e não havia espaços abertos entre nós.




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terça-feira, 15 de maio de 2018

Uma última carta



Eu escrevi-te uma última carta. À mão, como sempre achei que deviam escrever-se cartas de amor. O papel era todo branco. E escrevi a caneta, porque sabia que não quereria apagar uma única palavra.
Quando comecei a escrever a tua carta, questionei quais as razões de o fazer. Tu, com um pé fora da porta e eu, depois de me ter sido arrancado até a mais ínfima centelha de esperança. Parecia-me que se esgotavam as razões. Não haver razões pareceu-me uma boa razão. E, então, escrevi.
A primeira página da minha carta falava de nós e de elefantes. E da lua aqui ao lado. E da fogueira. E do fogo. Falava do olhar sobre um horizonte feito do teu passado todo. E de uma queda de água que nos roubou uma palavra de amor… a mim, pela primeira vez. Ler tudo isto fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te recordar do que foi. Mas eu não acho que te esqueceste. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do que correu mal. Da forma como nos dávamos, de raiva, a emoções que nem deviam ter existido, desejando, de alguma maneira, que a paixão do toque embriagado nos libertasse da falta de entendimento. E falei dos olhos na tela preta e branca. Dos cacos no chão e dentro de mim. Dentro de ti. Falei da poeira acumulada na madeira e do frio da noite onde palavras me sufocavam e não achavam forma de sair. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer a mim mesma que tinha de ser assim. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Continuei-a. Falando do futuro. Da forma como ainda te desejo cafés e paixões entregues na cama. De como te quero com olhos e céus azuis e soalheiros. Dizia, algures, que queria ser eu a entregar-te cafés e paixões. Um dia. Quando o teu relógio e o meu tivessem chegado a consenso. E o teu coração e o meu tivessem aprendido a lição. Acrescentei que há futuros feitos de passados que não se repetem E pedi que não tivesses medo de dar a volta. De voltar. Pedi que a honestidade do teu coração fosse mais forte do que o teu orgulho ou do que qualquer grau de intransigência virginiana. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para te pedir que voltasses, fosse quando fosse. E pareceu-me um péssimo motivo para te escrever uma carta.
Não a parei. Disse que te desejava o melhor do mundo e da vida. E que sabia que, dos teus pés de galinha até ao teu coração de diamante, não havia nada errado em ti. Desejei que encontrasses o que procuras e que te encontrasses. Que mantivesses a força e que a vida te tratasse com respeito. Desejei sorte para acompanhar o teu esforço, que é sempre tanto. E sol no rosto. E motivos para sorrires. Disse que nada do que foi e nada do que vem te mudaria aos meus olhos. Que eras das melhores pessoas que conheci e que há mares mais pequenos do que o teu coração. Ler tudo isto, fez-me achar que a razão pela qual te escrevia era para dizer que te amo. E pareceu-me um excelente motivo para te escrever uma carta.
Então, peguei nela, dobrei-a em dois, rasguei-a e deitei-a fora.
Porque me apercebi de que não importa quão bom é o motivo nem quão puro é o amor. Continuava a ser uma folha. Já não estava em branco. Tinha palavras a caneta e pensamentos. A contar uma história que já não tinha mais páginas para escrever.
Não era uma carta. Era uma lágrima pendente. À espera da resposta que, se não viesse, seria para me ferir e, se chegasse, seria para me torturar.
Eu escrevi-te uma última carta. Escrevi-a com o coração rasgado. E rasguei-a também. Deitei-a fora. Sozinha. Mas só porque não sei aonde se reciclam corações.





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quarta-feira, 9 de maio de 2018

No mesmo dia




Quem sou eu? Sei lá!
Só sei que no mesmo dia em que conquisto o mundo, me esqueço de como se enlaçam os atacadores das sapatilhas. Venço desafios, com os cordões enrolados e metidos para dentro delas. E aceno com sorrisos, sentindo o desconforto de eles ficarem sob os meus pés.
E, no mesmo dia, passo ao lado das desgraças noticiadas sem lançar um segundo olhar à televisão e ajudo a idosa a tirar o garrafão de água da prateleira do supermercado.
Tenho sorrisos e lágrimas. No mesmo dia. Tal como tenho ódios e amores. E a sensação de que tudo é perfeito. E uma vontade depressiva de morrer.
Quem sou eu? Sei lá!
Sei que acordo e adormeço depois de mil estações do ano passarem por mim, no mesmo dia. E que todos os meus outonos e primaveras, amenos e complacentes, chocam com o extremismo frio e escaldante das minhas ansiedades, sentimentos e decisões.
Dou um passo em frente e um atrás. Uma dança que acontece. Mil vezes. Duas mil vezes. No mesmo dia. E procuro no céu (ou debaixo da cama) uma centelha de esperança que me ajude a lidar com os meus medos, eternamente vincados; e a minha coragem, eternamente louca.
No mesmo dia em que levanto do chão os olhos de quem nele os posou há tanto tempo, com discursos que enunciam otimismo e confiança; eu pouso os meus no chão, com a sensação de que nada existe no mundo capaz de me fazer sorrir. E, no mesmo dia em que ataco, com frases duras, impensadas (e quantas vezes injustas?) aqueles que me cruzam o caminho, eu ensino os meus sobrinhos que as palavras são como as setas e têm um toque sagrado, devendo ser cuidadas e modeladas com amor, antes de se darem aos outros.
Quem sou eu? Sei lá!
Só sei que no mesmo dia em que me sinto princesa de contos de fadas, conto os trocos do bolso para saber se posso ir beber um café. E relembro as sombras de olhos que se fecharam no açúcar assente no fundo. E recuso a ideia da morte. Morro. E digo que sou imortal.
No mesmo dia em que agarro o urso de peluche junto ao peito e deixo que as lágrimas lhe deixem o pêlo sintético húmido, levanto-me e luto contra as tempestades da vida, como se nas costas, em vez de cicatrizes, tivesse asas e capas de super-herói.
E voo. E rastejo. E grito. E rio. Faço cambalhotas no ar. E queixo-me das dores nas articulações. Sinto-me entravada. Sinto-me enérgica. Viva. Descontente. Alheia. Atenta a tudo.
Agora sou um ser que vibra. Agora já não.
Sou tudo. Não sou nada.
No mesmo dia.
Quem sou eu? Sei lá!
Sou curiosa. Não quero saber.
No mesmo dia em que tento descobrir esta resposta, sei que não importa a resposta ou sequer que existam respostas.
Ainda estou viva. Celebro isso. E sou quem sou. Seja eu quem for.





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terça-feira, 1 de maio de 2018

Três idosos e um ananás




Do outro lado do vidro, eles são invisíveis. E as pessoas passam. Eles ficam. Todos na mesma mesa. E todos sozinhos. Conhecendo-se. Mas é como se não se conhecessem, nos olhares vazios e vagos, que oscilam entre os pedaços de poeira no ar e as próprias mãos.
Estão numa mesa redonda. Ninguém é mais do que ninguém. Porque não há cabeceiras nem vontade de ser, nesta fase da vida, mais do que uma criatura sem hierarquia. Permanecem. E são invisíveis. Afogam-se no anonimato da mesa branca. Vazia. Ou quase vazia. No seu centro, uma coroa. A do ananás, pouco maduro e inteiro. Terão, talvez, ido às compras antes de se sentar. Ou talvez o ananás sirva de centro de mesa às suas angústias. Não sei.
De tão tristes os olhos que lhes pintam cenários nos rostos enrugados e ausentes, imagino-lhes histórias. Por preguiça, pinto em todos eles a mesma história. Um dia amaram alguém. E era para a vida toda. Até não ser. Talvez tenham morrido ali mesmo, quando não foi. Mas agarravam-se às memórias. E isso fazia passar os dias, que não tinham sabor. Um de cada vez, levando-os da juventude à velhice, onde se sentavam juntos, com o ananás, apenas para partilharem a solidão.
Do outro lado do vidro, eles são solidão. Ninguém ri. Ninguém fala. São esqueletos à espera das carnes comidas sob a terra. Não têm mais nada além do vazio. E do pó no ar. E das mãos. O único reino que governaram foi a própria casa. A única guerra que travaram foi a do coração. Imagino que um deles se ofende. Não senhora! Esteve no ultramar. Não é bem assim! Esteve lá, onde tudo era saudade e vontade de voltar. Voltara. Para cá. Onde tudo é solidão e vontade de morrer.
O ananás no centro da mesa. Memória doce e imatura do amor que foi. Do amor que não foi. Enfim, do amor. E mil explicações colocadas nessa memória do tempo em que o palato lhes permitia sentir com exímia eficácia todos os travos agridoces da fruta rainha… e o toque lhes permitia explorar o desejo carnudo de alguém que devia ter ficado e partiu.
Sentam-se, incrivelmente sós, na mesma mesa. E são invisíveis. Ninguém parece vê-los. Ninguém parece ver o ananás. E as palavras que se trocam em redor, criando aquela algazarra típica de murmurinhe, não lhes passa pelos lábios. Eles contemplam. Porque acordaram de manhã. E ainda estavam vivos. Então, partilharam mesa. E no seu centro puseram o ananás, como poderiam ter posto o vácuo que transportam no peito.
Sinto-lhes a solidão. Do outro lado do vidro, sou eu que ocupo aquela quarta cadeira. Sinto-me velha e sinto-me só. Não me apetece falar. Apetece-me olhar para o ananás no centro da mesa. Travando a minha própria guerra. Tu gostavas de ananás. É só isso que eu sei.




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terça-feira, 24 de abril de 2018

Tu-és-louca




Ele morreu. E ela olhou para mim. Tudo no universo caótico da sua dor era apelo. E tudo no seu apelo era incompreensão. Disse-lhe. Porque ela não falou. Então eu disse. Vai ficar tudo bem. E ela olhou para mim. Dentro de mim. Rasgando-me as camadas de dermes e epidermes e órgãos e almas. Chegou aos meandros do impossível. Com um olhar. Um olhar rouco. Um olhar massacrado. Um olhar materialmente despido de entendimentos e de vontades. Por momentos, ela foi só o olhar que me deu. Só olhar. Sem palavra. Incomodou-me. Não o silêncio, que era conforto. Mas o olhar, que era crítica.
Houve mil anos nos segundos sem palavra do seu olhar. E ela entreabriu os lábios sofridos. Ele morreu. Não disse isto. Era isto que eu esperava ouvir. Não o disse. Disse outra coisa. Inesperada. Fria. Com um toque de raiva transtornada, que depressa tomou tonalidades de inveja cálida. Havia pó nas suas palavras. Como se quisesse dizê-las há muito tempo. E quando falou. Esse inesperado todo que me roubava a paz. Soou como se agredisse. Porque as palavras não foram para constatar a verdade. Ele morreu. Não! As palavras foram para dizer outra coisa. Tu – és – louca - ! E eu olhei para ela. E para o seu olhar. Todo ele feito de caos. Todo ele feito de dor. Todo ele feito de incompreensão.
Ele morreu. E ela não o dizia. Que ele tinha morrido. Dizia, em vez disso, que eu era louca. Não que fosse mentira. Não que fosse a primeira vez. Mas ele morreu. E ela escolhia, agora, dizer antes outra coisa. Não que doía. Não que tinha saudades. Não que ficaria sempre agarrada à vida de quem não a tinha mais. Olhando para mim. Os seus olhos. Os seus lábios. As suas palavras. Apontavam-me dedos. Tu – és – louca - !
Onde esperei que ela buscasse conforto, vi-a procurar o confronto. E não para me dizer que nada ia ficar bem. Para me dizer que eu – não ela, nem o destino, nem a morte – eu era louca. E havia nos seus olhos uma acusação tão severa, que eu não pude negar que o era. Sabia, de mim, medidas de insensatez que eram alheias aos outros. Eu, a louca. Em pensamentos? Em ações? Em palavras? Por dizer, talvez, que tudo ia ficar bem quando ele morreu? Eu sabia. Sabia que era louca. Sei que sou louca. Mas, quando ela o disse, eu não sabia porquê. Onde estava essa loucura que, de olhos feitos em mágoa, ela via?
Vai ficar tudo bem. Repeti. E ela ergueu o indicador. Cheio de implicações e de denúncias intermináveis. Tu – és – completamente -louca - ! Sou. Respondi. Mas porquê?! Questionei.
Olhando nos meus olhos. Com um toque de raiva transtornada, que depressa tomou tonalidades de inveja cálida. Rasgando-me as camadas de dermes e epidermes e órgãos e almas. Ela lá explicou. Ele morreu. E eu não posso fazer nada. E tu aí, a três passos da respiração de um amor que vive e sobrevive apesar de tudo. Parada. Se eu pudesse. Se eu pudesse lutar. Um segundo. Por um segundo dele. Vivo. Ali. Mas não. Ele morreu. E tu? Tu – és – completamente -louca - ! Por estares aí. A perdê-lo para o mundo. Sem luta. Sem dizeres ou implorares. Além de orgulhos toscos e de estupidez silenciosa. Eu faria isso. Mas ele morreu. E tu – és – louca -! Porque estás viva. E ele está vivo. E nenhum dos dois entende. O tempo passa. O amor é raro. As pessoas morrem. E tudo o que é alheio ao amor. É só loucura.




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terça-feira, 17 de abril de 2018

Equilíbrio




Talvez seja porque eu acho que o amor só pode existir onde há loucura. E tu julgues que tudo tem peso e medida. Ou talvez seja porque te tentavas encontrar onde eu ainda queria estar perdida. E talvez more nessas pequenas, enormes, gastas ilusões de que o mundo se alinha para dar oportunidades toscas de felicidade.
A minha visão do amor cria uma versão desta história que é só minha, falando de pontos vibrantes, onde os sentidos eram lava e ora queimavam de paixão, ora explodiam de raiva. Eu aprendi a ser na cama, como na vida, tudo ao mesmo tempo. Eu aprendi contigo que há pontos certos que apenas o são entre lençóis. Mas eu não posso ser eu apenas quando os corpos se dão. Também o sou quando o corpo me pertence e o futuro é todo incógnito. E há muralhas ocultas no tanto que eu posso ser, ardendo de paixão por um mundo que abomino.
Não faço sentido. Não sinto que possa – ou deva – fazer sentido. Acredito que também o amor não faz. Sentido. São só sinapses descontroladas. Electricidade pura. Raciocínios pouco eficazes. E uma escolha que se aceita e questiona mil vezes.
Eu não fui. Não sou. Talvez nunca venha a ser. Essa balança onde tudo se pesa e tudo tem medida concreta. O que sou tem nuances. E extremos. E excessos. E faltas. Acima de tudo, faltas. Tantas que não as pudeste aceitar. Tantas que te tornaste uma delas. A maior delas.
Dizes que me amas. E eu digo que te amo. Mas não me amas como eu te amo. Não conheces nem desejas o amor como eu o sinto. Tu e o teu amor são missas de equilíbrio. Fazem adventos e missões de peregrinação na ideia de que tudo tem uma fórmula certa, um tempo definido, um princípio válido.
Eu levo o meu amor de arrasto aonde vou. Caminhe ele a meu lado ou venha de rojo, sangrando. Dele, não espero outra coisa senão a loucura. Sei que ele grita à meia-noite. Que chora com filmes animados. Que se debruça em precipícios. Diz que quer morrer às terças-feiras, depois de ter passado as segundas a ver-se ao espelho, contemplando e amando a luminosidade dos seus reflexos. E pouco se importa com a formulação frásica das ideias ou com todos os seus sinónimos.
O meu amor não se pauta pelo equilíbrio. É uma corda bamba sem estabilidade e que sonha, sabe-se lá porquê, que alguém (se) mantenha uma rede de segurança sob os pés. No meu amor, a queda é inevitável. E a dor também.
Um amor avulso, com peso em escrutínio e um equilíbrio perfeito com a norma será certamente amor. Talvez seja o único amor que me fez amada. Mas não é um amor que eu saiba amar.
Eu sou fruto das árvores da insanidade. Amo com tudo. Apesar de tudo. Além de tudo. E para sempre.
O meu equilíbrio é pouco.
Tropeço nos meus próprios pés e caio quase sempre.

Levanto-me. Continuo.
Mais ou menos ferido, o meu amor também!




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quarta-feira, 11 de abril de 2018

Não venhas



Não venhas falar-me de solidão
Tu que caminhas por desertos
E falas em silêncios incertos
Perdendo o olhar n' imensidão.
Tu não sabes nada sobre a solidão!

Eu caminho firmemente nos passeios,
Converso sobre tudo e, de permeio,
Olho bem dentro dos olhos de mil gentes
E sinto essa solidão no peito
Essa solidão que tu, de só, não sentes.

Quem passa por mim deixa um sorriso
E parte sem ficar nada p'ra trás.
Vivo em lágrimas, fingindo o paraíso,
Fingindo que o mundo sabe o que faz.
Fingindo, em solidão, sempre fingindo

E é pior estar na multidão,
Todos ouvem mas ninguém sabe a razão
Que me faz perder o olhar no infinito
E não sabem que peço à imensidão
Um futuro que não esse que está escrito.

Estar só por entre tanta gentia
Em cada passo firme no passeio,
Em cada conversa que se anuncia,
Em cada sorriso falso de permeio
Num mundo que se assume em agonia…

Não venhas falar-me da solidão
Não estás só apenas de estares sozinho
Eu tenho o mundo inteiro na mão
Um futuro à espera, 'inda que vão,
E estou só em cada passo do caminho.

E dói mais caminhar nas vozes frias
Que não sabem que assumi já a derrota.
Perdi a vida entre mãos vazias
Na solidão constante dos meus dias
Tão cheios de gente... e ninguém nota...





*Imagem retirada da Internet



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terça-feira, 3 de abril de 2018

Tudo me dói


Tudo me dói menos a dor. A dor, em mim, tinha-se esquecido de como era. Doer. Tirando férias do meu peito, ela pouco fez além de contemplar a possibilidade. Esta possibilidade. Mas, sem acreditar muito nela, depressa se desfez, também, do pensamento. Então, enquanto tudo em mim era prazer (ainda que angustiado), felicidade (ainda que entrecortada) e sonho (ainda que acordado), a dor fazia uma espécie de tricô e esquecia-se. Esquecia-se de doer. E era miseravelmente infeliz na sua narrativa enfadonha.
Tudo me dói menos a dor. Há recantos do meu corpo que me doem e ligamentos da alma que padecem, estremecendo medos com o frio e com o tempo. Deito-me na cama e o teto é tela de um filme. Dancemos, diz ela. Não sei dançar, diz ele. E depois beijam-se. Fecho os olhos. E doem-me os olhos que fecho. Doem as imagens que dançam. E as que não sabem dançar. À medida que se movem entre as conexões infindáveis de um cérebro que não desliga e que, por isso, também dói. O coração, atormentando-se pela ideia de um tango que se faz a solo, falha um batimento e tenta arritmicamente recuperá-lo durante algumas horas. E, nesse processo, também lateja, obrigando as respirações profundas a lembrar-me de que me dói o ar que inalo e o que exalo. Inspiro. Expiro. Suspiro. E dói. Tudo me dói. Menos a dor.
Sem nada que traga recordações nas paredes da casa, eu vou descobrindo que a casa é recordação. E, em vez de a rasgar, dou por mim despida, debaixo da água corrente do banho, a tentar lavar da pele o toque pelo qual anseio. A tentar arrancar dos lábios os beijos que ainda desejo. A tentar proibir-me de fazer amor com a memória dos corpos dados debaixo de lençóis de desejo. E há dores nestas ansiedades. Como se a água fosse espinhos. E a cama fosse abismo. E o que fica entre o corpo e a alma fosse um rio de lava ardente, deixando golpes esfolados por onde passa. Arde. Tanto que o tempo pára nesse azedume tolhido de pesar e de sofrimento. Somo um mais um e descubro que dá um. Dói-me a sanidade. Dói-me a loucura. Dói.
Tudo me dói menos a dor. Nos pés nus, descubro que me doem os passos. No aroma do incenso que queima, descubro que me dói a fé. No reflexo que me devolve olhares complacentes descubro que me dói a auto-comiseração. E dói-me também a mão depois de reduzir a cacos o espelho, para que não olhe mais para mim, lamentando a triste sorte do meu triste eu. Subitamente, há gotas rubras no chão. Descubro que me dói o sangue. Rubis tristes de vida, ainda quentes e salutares, agarrando-me à terra dos vivos, com grilhetas. A vida também me dói.
E, por entre todo este universo de mim que dói confinadamente no meu pequeno eu, eu sei que tudo dói e sei, porque o sinto, que a dor não. A dor, em mim, tinha-se esquecido de como era. Doer. E era miseravelmente infeliz na sua narrativa enfadonha. Mas, agora – agora que tudo me dói – a dor não. A dor lembrou-se. De como era. Doer. E, pela primeira vez em muito tempo, ainda que tudo o resto doa, a dor está feliz.





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terça-feira, 27 de março de 2018

Não, não e não



Inesperada. Chega. Uma onda de tudo. Rompendo as entranhas. Rasgando por dentro a carne e a alma. Fazendo azias sucessivas pelo sistema digestivo. E pela espinha. Queimando. Até chegar ao nariz. Como um indício. De choro.
Olhos fixos no anteontem. E fios de cabelo a prenderem-me, feito âncora, à realidade. Ferrando as unhas nas mãos. Frias. Lívidas. Não, não e não. Da inércia ao pulo. Correndo. Até chegar. E olhar. Nos meus olhos. Bem dentro dos meus olhos. Em frente ao reflexo. Que ameaça sucumbir. Não, não e não.
A menina desobediente do espelho encolhe os ombros. E eu olho para ela. Franzo o sobrolho. Deixo que desfeie a testa enrugada das expressões. Repito a palavra. Não. E ela não faz muito caso de mim. Mas também não deixa que o picante desassossegado das emoções seja mais forte do que as minhas ordens.
A onda mantém-se. Em banho-maria. E eu olho para ela. E ela olha para mim. E fazemos um ar cínico e despojado de regras uma à outra. Podíamos matar-nos ali mesmo. Sem compaixão. Sem remorso. Sem que ficassem penas a ondear em nosso redor. Em vez disso, olhamos uma para a outra. E fingimos que não vamos chorar. Dizemos não.
O ardor chega ao peito. Vibra na ponta arrepiada do nariz. E quer fazer-se dor. Tolhe-nos os sentidos desalentados e descontentes. Faz com que brilhem pequenos sóis de chuva no canto dos olhos amendoados. Não, não e não.
Ela resvala. Fraca. E os olhos são água. Mas a água não verte. Eu levanto o indicador, espeto-lho mesmo em frente ao rosto. Tu nem te atrevas! E ela, que sou eu, tem medo de mim. E saber que tem medo de mim também lhe dá vontade de chorar. A tristeza é grande. E a maior é essa.
Sufoco. Não, não e não. Mas engulo as lágrimas. O nariz arde. O peito arde. Tudo arde. E tenho frio. Forço um sorriso. E ela devolve-o.
- Não o sentes, pois não?
Ela abana a cabeça.
- Eu também não.




*Imagem retirada da Internet
Fotógrafo: Paul Apal'kin


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quarta-feira, 21 de março de 2018

A cor das minhas paredes




Às vezes, o teu vazio pinta-me as paredes. E, ainda que me não chovam os olhos, é como se houvesse invernos e grades em meu redor. Prendem-me a mim mesma e fazem-me perceber bem as razões pelas quais não estás. Por um segundo, eu também quero ir. Não sinto que sou um bom lugar para edificar amanhãs.
A cor das minhas paredes é o teu cheiro. Lavado com lixívia e detergente. Esfregado com panos e unhas. Mas impregnado. Imutável. Na memória sensorial que te torna eterno nos meus segundos de desespero.
Digo que não te amo. Assim. Simples. Não te amo. Grito. Em silêncio. O grito mais desenfreado de todos. E o mais pacato. Ninguém o ouve. Queima a ferros na pele. E dói. Mas não deixa marca. Tal e qual como esse passado que se finge que já foi. E nunca passa.
Sou filha do mar e das descobertas que um povo nele fez. Tenho sal na pele e especiarias na língua. Tento fazer o meu fado. Fiel. Mas a verdade é que, na pele, eu queria as tuas mãos. Na língua, eu queria a dança dos nossos beijos. E este país fadista é hoje todo saudade e mortos a boiar nas águas negras ao largo do Cabo das Tormentas.
Amas-me?
Faço a pergunta ao vazio das paredes. E as paredes desonram o passado. Dizem-me que pare. Que seque as perguntas como sequei os olhos. Que te deixe ser feliz. Que me esqueça de perguntar. Tudo. Isso. Também isso. Se me amas. E calo-me. Obedeço. Percebo que pouco mais tenho feito além de obedecer. O mundo é todo meu dono. E eu sou escrava dessas vontades que me não são. Vergo-me às chibatadas do tempo. E dou as costas, feitas de asas. Para que me arranquem as penas. Essas que consomem o espírito.
Eu sou muitas coisas. Eu não sou ninguém. E hoje sinto.
Pouco há no chão além de pedras. E corpos que apodrecem. Invejo, de ambos, a sorte da inércia. Invejo-lhes o sono pesado. E a forma como não vêem o vazio que hoje me pinta as paredes.






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quarta-feira, 14 de março de 2018

Leva tudo




“Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te.” (William Shakespeare)

Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Não quero olhares complacentes nem penas atiradas ao ar. Nem mesmo nuances gastas entoando o tanto que te dei. Porque a vida não é sobre as coisas que são dadas. É sobre aquelas que se roubam, apesar do muito oferecido, numa ganância sentimental que só culmina no exagero do vazio.
Se vais procurar um espaço mais cheio, onde caibas, inteiro, acho que deves ir. Mas, por favor, não me deixes os monos da tua passagem. Não me deixes nada que possa lembrar-me das noites de riso, dos corpos dançando sem som, ao ritmo de um amor eterno que, afinal, tinha prazo de validade.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva tudo contigo.
Já basta que se tenha agarrado às paredes a memória do que ninguém sabe. Das melhores sensações, às discussões mais abruptas. Onde tanto foi feito, onde tanto foi dito. Basta que se tenha agarrado às minhas paredes o rancor e a solidão, entre os quais vou viver, tentando construir com o tempo algo de mais firme e mais meu. Não quero as tuas mesas nem os teus filmes, nem as tuas bugigangas. Não quero o teu sofá nem as tuas toalhas. Nem as tuas chávenas, nem as tuas velas. Hei-de encontrar outra forma de alumiar as noites frias. Hei-de encontrar outra forma de as aquecer.
Leva tudo contigo. Deixa-me, por favor, prateleiras sem nada, gavetas vazias e divisões onde o eco preenche espaços desalentados. E, de resto leva tudo. Por favor. O que já tinhas. O que compraste. As coisas que te dei. Principalmente essas. Leva-as. Se não as quiseres, podes deitá-las fora. Queimá-las. Mas leva-as. E, com elas, também este inútil coração – que não é mais do que cacos, outra vez. Leva-o, porque to dei e não o quero mais. Nunca mais. Queima-o com os livros e os poemas. Queima-o com os elefantes e as garrafas. Queima-o. Outra vez.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Deixa só os meus, ainda que me sobrem salas vazias e pó. Não quero nada. Leva tudo contigo.
Já basta que o chão tenha os teus passos. E que o teu cheiro seja uma memória de manhãs de sol. Já me basta sentir-te os beijos no café e o toque no cair da água sobre o corpo despido. Já me basta recordar-te os pedidos dos dias quentes. Não quero que te fiquem as memórias rasteiras, feito hera, a proliferar nas minhas paredes, nas minhas gavetas, na minha esperança. Leva. Leva também a esperança. Leva tudo contigo.
Com o vazio, reaprenderei a lição. Perceberei novamente a sina de se ser monstro, entre humanos. Espelho eterno do que nunca se sabe. E estarei mais próxima do que me fez ser eu, antes de me roubares de mim, para me prometeres algo que, afinal, não podias dar-me. Ou que podias… e eu não deixei. Ou que deixei… mas não conseguiste. Deixa-me reaprender, dando as mãos à solidão que, antes de ti, sempre me assinou os livros de visita.
Não preciso de nada teu. Não quero nada teu. Leva, por favor, cada um dos teus pedaços. Não os deixes aqui, a fazer-me lembrar do que podia ter sido e não foi. Leva tudo contigo. Para eu me esquecer. Para eu fingir que me vou esquecer. Como se pudesse esquecer… logo eu, que sei de cor cada detalhe de ti.






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terça-feira, 6 de março de 2018

Overdose




A dualidade da vida é, talvez, um pouco mais simples do que as linhas pardas com as quais tentam pintá-la. Pisando as pedras do chão, em desenhos brancos e negros, sinto-me criança outra vez. Saltando, de desenho em desenho. “E quem pisar as brancas, morre.”.
“A miúda vai cair”.
Ainda soam as palavras. De alguém. Que, indo atrás de mim ou à minha frente, não saltava as pedras. Morria. Nas brancas. Sem arriscar os saltos. Julgando-me, talvez, infantil e idiota por insistir numa brincadeira de quilómetros. E julgando sempre que acabaria ferida, de rojo no chão, com os joelhos esfolados. Por não andar. De uma forma normal. Como os outros.
Mas andar como os outros sempre me pareceu pouco. Porque os passos que dão são sisudos e fechados em si mesmos. Não contam. Assentam-se no desejo do destino. E a meta é só lá à frente. Por vezes nem chega. Anda, também em passos “normais”, ao mesmo ritmo daqueles que acham que o caminho importa pouco.
A dualidade da vida é bastante simples: molda-se entre a falta e o excesso. E nas críticas daqueles que têm falta sobre aqueles que têm excesso. E nas críticas daqueles que têm excesso sobre aqueles que têm falta. E todos somos falta e excesso. Uns mais. Uns menos. Uns numas coisas. Outros noutras. Somos todos dualidade, embora nem todos sejamos vida.
Àqueles a quem falta o desejo de imaginar fossos no sítio das pedras brancas, falta geralmente visão sobre o que acontece no mundo e fora de si mesmos. E falta-lhes motivação para acordar. Razões para sorrir. Esperança num universo mais justo. Falta-lhes um sorriso que se dê, vadio, nas mesmas ruas onde caminham. Falta-lhes a loucura da decisão inesperada e do “é agora ou nunca”. Falta-lhes a capacidade de esquecer o risco que se prende à ação. Falta-lhes a vida que devia haver entre o berço e a sepultura.
Salto. De um desenho para o outro. Entre um desenho e o outro há pedras brancas. Mas imagino falésias que levam ao nada. E rodopio sobre as pedras escuras, dançando o jogo da ilusão. Tenho, talvez, excessos. De imaginação e sonhos e ilusões. Tardias e cândidas, fazendo de mim criança mesmo quando os anos passam. Tenho excesso da menina que fui. Excesso dos seus cabelos encaracolados e da sua timidez morta em cânticos à lua pelas ruas da cidade. Excesso de palavras presas, que criam mundos na minha cabeça, meio loucos, meio díspares, todos feitos de uma alucinação presente.
E sei que vou morrer. Tenho excesso desta certeza. E, talvez porque a tenho, em excesso, não me assusta a ideia da morte. É apenas pisar as pedras brancas do caminho. E a meta é essa.
Não tenho medo da morte, nem dos excessos. Sinto que posso viver nessa overdose de sentimentos e sonhos, de forma segura e eterna. Serei sempre princesa no meu tempo que não envelhece, de asas fechadas sobre as costas onde nascem luas e elementos feitos a tinta. Salto.
Quem pisar as brancas morre. Toda a gente morre. Mas alguns morrem de falta. Pisando as pedras brancas.
Eu não. Eu piso as pretas. Vou. Vou de excessos e rumo aos excessos. Também vou morrer. Quero morrer. A eternidade assusta-me. Mas, quando morrer, quero que seja de overdose de vida.



Marina Ferraz


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quinta-feira, 1 de março de 2018

Abertura fácil



Sobre a minha cama existe um tecto. E, em cima dele, mora alguém que lhe chama chão. Amontoados nas prateleiras mais ou menos organizadas do mundo. Falando sobre andar lado a lado, à medida que nos empilham, até estarmos todos uns em cima dos outros e promovendo dietas saudáveis para verem se ocupamos menos espaço. É assim que vamos. Porque é mais fácil. Dizem.
O chão da vizinha, que é o meu teto, não prima pela espessura concreta do isolamento. E, por isso, sei quando o bebé chora e a forma como o choro do bebé se abafa com o ligar do aspirador ou de um qualquer canal de televisão no volume máximo; atirando palavras que misturam o cansaço do dia e a irritação noturna. Iniciam-se discussões que duram até ao bater da porta. Não sou eu, és tu que és difícil. Ele acha-se fácil. E diz isso.
Fugindo dos sons, os passos caminham pelo espaço limítrofe das calhas da porta, fechando com cautela a dita, para que, batendo, não acorde o bebé que se embalou nos gritos maternos. E encontra-se o toque, mais ou menos feito de gelo, de um vento que, vindo de Norte, traz consigo Invernos, seja em que estação for. E respira-se geada amanhecida. Continuadamente empoada, pelos traços nocivos de um fumo que desaparece. Perfume de asfalto alcatroado e de borracha queimada. E um toque putrefacto proveniente dos contentores que medeiam as prateleiras de gente da cidade. E o carro que virá, pela madrugada, com o som meio soprado e contínuo que lhe é caraterístico. A vida torna-se, assim, mais fácil. Digo eu.
Não há estrelas cadentes no céu. Mas fico à espera de ver passar lixo galático e universal, formando um risco ilusório no céu para pedir desejos. Também dos desejos o dizem. Que são fáceis. E são. Na sua utópica fantasia, onde tantos passados se enterraram, os desejos têm a facilidade da não concretização agarrada aos seus tornozelos oníricos. E é fácil. Ou é o que dizem.
No sol nascente, existe o cinzento colorido a fogo que traz uma esperança renovada. Para quem dormiu. Eu não. Mas, para quem dormiu. Para quem tem a sorte de tetos mais espessos ou chãos menos permeáveis. Para esses, ele é a renovação da esperança, e tem possibilidades à espera, na hora da tigela de cereais com leite. Essa que se corta, com faca ou tesoura, no local onde permanece a indicação de abertura fácil. É o que diz. Fácil. Mas já alguém abriu um pacote de leite pela abertura fácil, sem recorrer a objetos cortantes e três graus de impaciência?
Entro. Na minha prateleira. Para comer os meus cereais saudáveis. E cumprir os desígnios. Os de ocupar menos espaço no mundo. Enfezando-me e empilhando-me junto aos outros seres enfezados e empilhados. Dizem que é difícil escrever. Eu não concordo. Acho que é difícil calar os pensamentos. Esses que nascem, aos poucos, talvez entranhados de palavras ocas e cheiros nauseabundos. Dizem que é difícil pensar. Não é. É fácil. Como a abertura pré-estabelecida de um qualquer pacote de leite.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Idalina



Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. Sobre ela, creio, não se escreveram contos, nem romances. Não existe, tão pouco, uma epígrafe de pedra, qual lápide sepultando os ossos idos, que relembram, hoje em silêncio, o tempo de um corpo farto de amor e vida. Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História e nunca fez por sê-lo. Caiu em desuso o seu nome e a sua identidade perdeu-se. Chegou-me só. Numa espécie de fumo aromatizado a saudade. Sem corpo. Apenas voz. Contada, com apontamentos dúbios de veracidade, que se estendiam, ressoando, na memória… “Oh Lina, Lina… a Guarda é feia”.
Ela não era o tipo de mulher que se importava com a ideia de não ficar para a História. Mas não gostava de ouvir dizer que a terra onde cresceu era feia. E, senhora do lar, cândida e devotada à família, ela que nunca se enervava, logo via a mostarda subir-lhe ao nariz. Feia é a Covilhã! E iniciava-se uma espécie de debate, de proporções mornas, que terminava com a única noção que Idalina conhecia. A do amor.
Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. A sua pele pálida, quase translúcida, de uma tez modelada pelo remoinho do cabelo revolto, no lado direito da nuca e o sorriso que demarcava as rugas junto aos olhos amendoados, estavam destinadas a permanecer nas fotografias a preto e branco, onde morreria pela segunda vez, desconhecida nos olhos amargos das pessoas que não sabem quem ela é.
Ancorada num tempo em que a sola do chinelo era um instrumento educacional tão útil quanto a tinta de escrever ou o livro de leitura, ela aprendera a imprimir as normas com exímia sapiência e criara cinco filhos. Dois filhos e três filhas. Que viriam todos a honrar-lhe a memória do nome que esmorecia. Nos dizeres mais simples. Nas memórias mais firmes. Como os beijos do chinelo. De onde “só se perderam as que caíram no chão”.
A História não fala de mulheres como Idalina. Nem da forma como cuidava garantir o bem-estar dos seus e dos outros. Nem da forma como tinha braços que acolhiam António, depois de ausências e em períodos de faltas. Nem da forma como, temente a Deus, imprimia nas crias os valores da bondade e da benevolência. Dela, só falavam os filhos. Primeiro os cinco. Depois quatro. Depois três. Agora dois…
Falou-me, um deles, da Idalina. Mulher forte, que em tempo de guerra fazia milagres na cozinha, servindo pratos de quase nada, sem reclamar e com uma oração nos lábios. Mulher que, aquecendo a família ao redor de uma salamandra, tecia com meias sorrisos inteiros em rostos de meninos. Mulher que dava, sem pedir. Mulher que pedia para poder dar mais. “E se ela não está no céu, mais ninguém está”.
Idalina. É este o nome. De uma mulher que não ficou para a História mas que conquistou – ou assim se espera – um lugar no céu, pela forma como levou a vida.
Ela não era o tipo de mulher que ficava para a História. Mas é o tipo de mulher que deixa um legado. Em mim, deixou dois olhos amendoados e um remoinho no cabelo revolto, do lado direito da nuca. E esta história. Que não vai ficar para a História. Mas vai ficar aqui. Enquanto eu aqui estiver.



Marina Ferraz



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terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Armas




Algumas pessoas nascem com armas. Outras aprendem a construí-las. Há ainda aquelas que, de tão fascinadas pelos mundos da guerra, se dedicam a procurá-las, cavando com os dedos na pele alheia, em busca dos artifícios que lhes preencham os arsenais. Têm as mãos levemente ensanguentadas. E sorrisos nos rostos. Matar dá-lhes um prazer que preenche mais do que qualquer refeição e sacia mais do que qualquer bebida divina. Matar é ser-se imortal. Por alguns segundos. Antes de voltar a sede. E a fome. Pela carne e o sangue e os ossos espalhados sobre a arena da vida.
Há uma guerra aberta em cada conversa. E em cada gesto. E em cada sussurro de ponteiro de relógio. Disparam-se as armas. As que se trazem, as que se fazem, as que se procuram. E todos são culpados desse desejo, mais ou menos patente, mais ou menos abstruso, pela carnificina que se faz ao outro. Contando que todos saiam a andar. Inteiros. Com duas pernas e dois braços. Olhos rodando nas órbitas. Passos coxos apenas de insistir nos saltos. E orelhas moucas como a moda dita. Basta que saiam todos a andar. Ninguém repara. Nos bocados espalhados pelo chão, não tão diferentes dos restos de carnes na tábua do talho. Porque são bocados de alma. E a alma sangra uma seiva invisível. Algo amarga mas sem cheiro. E não deixa no ar a noção da morte que caminha. Com passos coxos e orelhas moucas.
Foram os meus passos e as minhas orelhas. Muitas vezes. E a minha alma. Mas isso ninguém sabe, porque não se vê. Das armas que usaram contra mim, sempre esperei inovadoras tramas e princípios. E não me desiludiram nunca as mãos e as bocas e os olhos que as disparavam. Lançando balas de sopro, onde desprezo, ódio, arrogância, insensatez, mentira, despeito, rancor e maldade se uniam num metal muito fino. Dilacerante. Que acertava em cheio. Dentro. Deixando-me caídos os bocados meio mastigados da carne da alma. Pelo chão. Enquanto eu ia.
Durante toda a vida, a única arma que eu alguma vez tive foi a minha escrita. E as palavras, que eram as balas. E as folhas que eram campos. E as linhas, que eram guias. E as margens, que eram regras. Mas arma? Arma, só tive uma. Essa. A escrita.
Escrevi. Cada texto era uma recolha, de joelhos no solo, apanhando os pedaços da minha alma e juntando-lhe as peças, feito quebra-cabeças. Nunca lhe prometi que voltasse a ser una. Tentei sempre que fosse bonita.
Mas quando a alma dói. Quando olha ao espelho e não se reconhece. Ela própria pega nas armas. Na arma. Na escrita. E diz. Diz o que deve. Diz o que não deve. Diz o que quer. Odeia toda a gente. Diz que odeia. Mas depois ora pela humanidade como se a amasse. E torna-se bipolar de ideias e pensamentos dispersos. Tudo é cinza. Tudo é cor. Tudo dói. E fazemos um gesto de carinho, de mão passada com leveza, palma sobre pele, nesse irregular segredo de cicatrizes invisíveis e dores indizíveis.
Aprendemos a ser fortes assim. Amando. Até o que nos derruba. Até o que nos quebra. Por vezes, mais o que nos abala e destrói. Numa loucura que só não é louca porque se diz amor.
A única arma que eu alguma vez tive foi a minha escrita. Não é uma arma que sirva propósitos maiores, salvo se alguém ler. Mas, por uma vez ou duas, venci batalhas inesperadas, onde a chance era de um contra um milhão.
Se vale a pena? Não vale! Mas cada um luta com o que tem. Eu tenho isto. Terei sempre isto. E joelhos que se dobrem para me ajoelhar. E mãos que recolham os pedaços quebrados de mim. Quando as armas dos outros forem mais fortes que as minhas. Ou quando – por amor – eu não quiser revidar.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Quem é esse monstro




Perguntaram-me. Quem é o monstro? Uma resposta imediata. O monstro sou eu. Mas quem é esse monstro que tu és? Desassossegada, uma mente que nunca dorme, mergulhou no negrume de si. Quem é? Esse monstro que eu sou?
Plural, incompreendido, senhor de um nariz que é seu. Com muito para dizer, com muito para ouvir, com muito pouca vontade de dizê-lo e ainda menos de ouvi-lo. De extremos. De obsessões. De desejos. Vibrantes e lascivos. Ou inconsequentes. De falácias. De medos. De supostas coragens desarticuladas, que anulam o medo como se não existisse. Pisado. Dorido. Cheio de cicatrizes de suposta quebra e com um sabor metálico nos lábios eternamente cerrados porque falar se faz com as pontas dos dedos.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Atormentado, feito de sonhos e panteísta. Eternamente devotado aos Deuses. Num plural que se faz vento suspirado. Do contra. A favor. Com um lugar de fala que abomina e ao qual se amarra. Desconhecido de si. Desconhecido dos outros. Concreto como a sombra e desiludido como os manifestantes da ordem da paz. Eternamente encontrando defeitos. Nos verbos e nas formas de dizer a, à, há. Completamente contra a ordem das coisas. Com uma necessidade profunda de encontrar uma ordem para as coisas. Obsessivamente controlador da forma como o tic e o tac se sucedem. Guardião de ponteiros de relógio. Senhor e mestre de agendas que se preenchem a lápis. E de um lápis que é tinta mental e só apaga a bomba.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Vítima. Mas atacante. Defensor. Linha da frente na apologia do eu. Criador de massacres. Rasgando a pele com as unhas. Que pinta. Ou não. Consoante a maré. E o tempo. E o número de dígitos digitais na conta. Impulsionador de memórias que são ácidas. Bebendo do veneno dessas realizações inconcretas sobre palavras que foram ditos e gestos que foram feitos. Eternamente velho entre os jovens e para sempre menina, de saia levantada e lágrimas nos olhos. Correndo. Ora para lá, ora para cá. Sem saber a qual dos passados e futuros deve chamar presente.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Adorador de mortes. Bebendo de seivas góticas a vida inebriada a absinto e tequila. Com um aroma de madeiras e frutos silvestres na camada inferior do vinho que abre, ao seu contrário. Porta fechada, com três camadas de muralha e duas de véu. Onde a sobreposição dos concretos se faz no horizonte onírico de desconhecimentos dispersos, inversos e invertidos em si. Na tortura ancestral do que se diz moderno e sem aceitar a modernidade tecnológica que transforma betão em estrelas cadentes e pessoas em autómatos que assistem a cloaca televisiva e dela geram algo que, redundantemente, ganha título de opinião.
Tudo isto e mais. Mas quem? Quem é? Quem é esse monstro que eu sou?
Amante e amor de quem não sabe caminhos consistentes para as terras veraneantes. Incapaz de se libertar dos espectros fantasmagóricos da paixão. Queimado e apaixonado pela mesma chama que dá alento aos ossos imundos e cheios de desencanto. E louco. Louco como só é quem, detido pelas amarras brancas de um abraço a si mesmo, passa os dias a olhar para o nada, vendo tudo e um pouco mais do que tudo.
Perguntaram-me. Quem é o monstro? Uma resposta imediata. O monstro sou eu. Mas quem é esse monstro que tu és? Desassossegada, uma mente que nunca dorme, mergulhou no negrume de si. Quem é? Esse monstro que eu sou? Não sei.




Marina Ferraz




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quarta-feira, 31 de janeiro de 2018

"i" - "!"



Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”. Esse “i” foi uma porta. Essa porta levou a uma estrada. Essa estrada levou a um futuro. E o futuro tinha muito passado dentro dele. E o passado tinha muitas histórias. E as histórias eram feitas de verdade e de mentira e de imaginação. Um dia. Um dia eu escrevi um “i”. Estava vestida de preto. Por cima da saia de folhos. Por cima do corpo miúdo. Por cima do coração que batia. E pendiam-me os cachos do cabelo, em caracóis imperfeitos. Com laçarotes de fita. Ao xadrez.
O quadro era de ardósia. O olhar era de complacência. Os passos eram ofegantes preces, na direção do estrado. Os risos eram dor. E as palavras eram mudas. E eu não tinha nada. Além do giz. Além da mão. Além de mim. E do “i”. Esse que escrevi. E que estava certo.
Um dia. Um dia escrevi um “i”. O “i” foi um alfabeto inteiro. O “i” foi um dicionário inteiro. O “i” foi universalmente galardoado como senhor de todos os manuais. Havia milhões de possibilidades. Em cima do estrado. No meio do quadro. Na pintinha feita com a mão a tremer. Um dia. Um dia, eu escrevi um “i”.
Disseram-me que a vida era do direito. E eu tentei pôr o tempo parado no espaço da ilusão, que começava com “i”. Guardado para mais tarde, quando me faltassem vogais. Mas as consoantes da vida não bastam. E vêm consoante a história. Não são bem assim. Tomam sentidos diversos e pintam cenários que não são. O “i” não. O “i” era vogal. E uma vogal é só isso. Inspirei. Fui buscar inspiração a histórias. Fui invisível no processo. Tudo bem.
Eu sabia. Tinha escrito um “i”. E a vida não era vida sem esse “i” que eu tinha escrito quando, aos seis anos, decidi a minha vida toda.
Decidi que a vida não era do direito. Virei a vida ao contrário. Escrevi novamente esse “i”. Virei a folha ao contrário. O “i” passou a ser “!”, um ponto de exclamação. E passei a ser o que, insistentemente, me disseram que era impossível. Decidi que “impossível” é a única palavra com “i” que eu não quero na minha vida.


Marina Ferraz


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quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

No alto da esfera



Há uma lua no alto da esfera
E um espelho onde finjo ser gente
Refletem-se fases, feito quimera
Levam-ma a alma indigente

Há um poema na ponta do medo
Não tem estrofes nem punhais
Repetem-se versos, feito segredo:
Uma caravela atracada ao cais.

Finjo ser gente por entre a gentia
Cansam-me os temas, cansados de mim,
Gentis são os dedos que, sem simpatia,
Me arrancam da terra, me ditam o fim.

Há uma lua no alto da esfera
E um espelho que reflete o nada.
Finjo ser gente… mas quem me dera
Ser, na distância, a lua quebrada.



Marina Ferraz


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