terça-feira, 21 de novembro de 2017

Privilégio



O mesmo corpo que levanto da cama, ela levanta do chão. E avançamos as duas, sonolentas. O mesmo rosto, do qual lavo as remelas amareladas do sono, ela lava para tentar esconder as horas por dormir. E os passos que dou, nas meias quentes que a minha mãe me ofereceu, ela dá descalça, sobre as pedras frias.
Eu não sei a sorte que tenho por ter quentura nos pés.
Ela acha que tem sorte porque ainda está viva.
Reclamo da fruta, demasiado madura, que me espera na fruteira. E ela colhe o fruto, agradecendo à terra que lho dá, dividindo-o em dois para que também o filho coma. E vamos as duas, debaixo do mesmo sol.
Envolvem-me os braços do meu amor. Do meu amante. Carinhosos e cheios de promessas, fazendo do meu corpo templo, que se honra com sedução e ternura. O meu corpo branco e esguio. E lançam-na contra o chão, de novo, os braços rudes e violentos dele. Que a massacra e a desonra, violentando-lhe a carne. Entrando-lhe na carne. Exigindo-lhe da carne o fruto que ela não quer e a força que ela não tem. No corpo negro e subnutrido. Fitando o teto, com olhos laços e vazios. Ela entoa uma canção. Calada. Para dentro.E reza pelo que vem depois. Seja o que for.
Eu não sei a sorte que tenho por ter o amor de alguém.
Ela acha que tem sorte porque ainda está viva.
Passo nas mãos o unguento aveludado, de aroma a framboesa, para as hidratar. Julgo-as desengraçadas e secas. E sinto o calor da mão que se dá a essa a outra, menos feia. Ela agarra nas enxadas e vai. Tem calos nas mãos que dá ao martírio. E agradece por tê-las. As mãos.
Também agradece por ter pés, enquanto eu calço os sapatos de salto e reclamo por tê-los. E agradece por ter comida, enquanto eu reclamo do número de calorias que me enchem o prato guloso.
Andamos sob o mesmo sol. E sobre a mesma terra. Eu reclamo que não me entendem. Ela não sabe que não a entendem. Na maioria dos dias, ela pouco conhece além do dia que lhe nasce e da noite que a leva até ao dia que vem a seguir.
Eu não sei a sorte que tenho por andar sobre esta terra.
Ela acha que tem sorte porque ainda está viva.
Somos iguais. Gostamos de dizer. Que o somos. Iguais. Podemos perder o nosso tempo a dizê-lo. Porque faz parte do privilégio falar. Para dizer. Que somos. Iguais.
Ela não sabe se somos iguais. E eu só finjo que sei. Tento convencer-me de que o sei. Como se soubesse. Como se fosse verdade. Mas só porque quando traçaram a linha, eu fiquei a norte.




Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 14 de novembro de 2017

Tu sabes


Para a minha mãe

Sabes quem eu sou.
E foram muitos a achar que sabiam quem eu era. Mas não. Não sabiam. Porque havia uma capa. E sob ela um invólucro. E sob ele a muralha. E atrás dela três níveis de fingimento. E mais dois de agressividade. E pelo menos um de dissimulação. Eu permanecia atrás delas. E não. Eles não sabiam. Eles não sabem. Nunca souberam. Quem eu sou.
Tu sabes.
Sabendo, rasgaste a capa. E depois o invólucro. Quebraste as pedras da muralha. E permeaste os níveis de fingimento; combatendo fogo com fogo na minha agressividade e ganhando-me com a confiança que dissipava a hipocrisia. Atrás delas, estava eu. Mas não um eu como não imaginavas que eu fosse. Eu, como já sabias que eu era. Enquanto eles não sabiam. Porque eles nunca souberam. Quem eu sou.
Sabes quem eu sou.
Talvez porque te cresci nas entranhas. Talvez porque me expulsaste de ti apenas para me envolveres nos braços. Guerreira planetária. Pantera negra. Rugindo. Alto. Na voz de ventos descobertos em mares de além. Tinhas um povo. Eras um povo. Um exército de proteção em meu redor. Mesmo antes da capa. Mesmo antes do invólucro. Mesmo antes da muralha. Contra tudo e todos. E mais os outros que pudessem vir. Eras. Foste. És. Serás sempre. Esses braços de ferro e fogo. Que me aquecem com ternura e condenam quem me macula. No mesmo tom. Pelo mesmo sentido.
Tu sabes.
Talvez porque me viste ser menina. Ou talvez porque me viste ser mulher. Ou talvez porque me viste ser monstro. Não sei a razão. Mas sabes o que fica por baixo da pele queimada da vida. Como quem sabe de vidas nunca vividas. Ou de tempos por devir. E, sabendo, acalentas com palavras ou conselhos ou insultos de baixo espectro esse eu que, por vezes, nem eu mesma sei que sou.
Tu sabes quem eu sou.
Penso que o saibas, também, porque me construíste do zero. Me produziste do nada. Me moldaste de um barro muito próprio e pessoal, com partes de ti e da tua alma. Gosto de pensar que partilhamos. A alma. O coração. Gosto de pensar que nos partilhamos. Encaixando noções do mundo em espaços desusados que as outras pessoas não aceitam e não entendem. Talvez por não entenderem, as outras pessoas não sabem. Quem eu sou. Mas tu sabes. Ainda que não o digas. Tu sabes. E eu sei que sim.
Saber é muito importante num mundo de enganos.
Saber é muito importante num mundo de ignorância.
Quem sabe é quem está. Quem fica. Quem não nos deixa sós.
Sabemos.
Sabes bem quem eu sou.
E eu sei bem quem tu és.
Tu és a pessoa que sabe. Mesmo o que mais ninguém sabe. Mesmo o que nunca ninguém soube. Mesmo que mais ninguém saiba. Tu sabes de mim.
Quero dizer-te uma coisa. Não digo. Basta um olhar. As outras pessoas não vão entender. Tu vais. Porque tu sabes.
E está tudo dito.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 7 de novembro de 2017

Burocracia



É uma espécie de plataforma legal. Que nos leva. Lentamente. Na fluidez de um tempo próprio. Que se estende e expande, até que cada segundo seja uma hora e nela saibamos puxar fios soltos de uma tapeçaria que nunca acaba.
Algures, para não ficarmos enrolados nesse tear constante de possibilidades que nunca se concretizam, vamos enredando diminutos nós de forca e usando as linhas como gargantilhas. E vão puxando, todos os dias um bocadinho, o chão debaixo dos nossos pés. Com as mãos do silêncio e da improficiência grosseira, resultado de muitas inépcias e muito ócio fora de tempo. Obrigando-nos a ficar num posicionamento débil de equilíbrio, nas pontas dos dedos, fazendo um bailado sobre o ar. Se nos chega a dor sistémica, falta-nos a leveza dizível. E tombamos.
Um aplauso. Um riso. Uma frase feita de clichés. Tudo melhor do que nada. Mas vem isso. O nada. Sem aplauso ou riso ou cliché. Sonhamos. Queremos. Outra coisa. Qualquer coisa. É um desejo onírico, onde se trazem vulgaridades dependuradas nas mesmas cordas que se enlaçam e nos libertam da necessidade inusitada da respiração.
É uma espécie de plataforma funcional. Diz que é. Diz. Funcional. E permanece na disfunção de o ser porque quem tem a competência de fazer andar os relógios não são as mãos que laboram nos ponteiros. E, se o fossem, seriam máquinas. De pouco valeria falar de sensatez ou de indigência. De pouco valeria… e de pouco vale. Que os queixumes nunca ultrapassam as portas da hierarquia e, quem tem o poder, quer desfruir dele antes que se evada.
E fica no ar esse toque aromático, um tanto pútrido, de uma espera que se faz às portas da mesma casa que nos devia levar, em braços, até ao patamar onde converge excelência, sonho e sensatez. Porque, para que se passem as portas, é preciso que alguém decida. E tome o bravo e ousado ato de mover a mão para assinar e carimbar um papel.
É só silêncio. Uma espécie de plataforma legal. De legalidade questionável. E com o bom senso enterrado, sob fios de uma eterna tapeçaria e mil requerimentos e dez mil lamúrias. Leva-nos. Levemente. Na fluidez de um tempo próprio. De um tempo estático. Onde nada acontece. Mas tudo envelhece. Até a história. E, nessa história que se faz velha, há sempre uma razão. Tudo se justifica. Como é fácil justificar o tanto que não se diz.
É uma espécie de plataforma legal. Que se diz funcional. Disfuncional. E só.


Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

A lista III



Tenho três razões para ir embora e só uma para ficar.
Tudo é uma lista. Como aquela que se faz de compras. Onde se sobrepõem, de forma mais ou menos indiscriminada, conforme dita a memória, o papel higiénico, o vinho alentejano e o anel de diamante. E, em cada lista, o desenfreado do pensamento procura ler, nesse corrido de palavras mais ou menos soltas, os sentidos e as intencionalidades, para os arrumar nas prateleiras e corredores desse enorme mercado que é a vida.
Tenho feito listas. Sejam de compras, no fim do mês. De desejos, no fim do ano. Ou de mágoas, no fim do dia. E todas se estendem por infinitos, onde se lançam papiros no universo, formando estradas e vias lácteas, de luz e pó de estrela, até ao lugar do desconhecido.
Contigo, fiz uma lista. E outra lista depois. Até que, da soma de desejos acumulados, sobre como tu e eu seríamos nós - a agarrar o café e a manta e a deitar no chão das nuvens, olhando para o infinito - se foi somando o tempo e subtraindo a concretização. De feito e riscado, ficou apenas o traço. E o traço é linha. E a linha é cordel. E o cordel dá nó. Em torno de ti. De mim. Dos nossos braços. Das nossas intenções, que se largam para agarrar o aperto dessa corda que nos asfixia, pendurando-nos sem chão sobre o abismo onde, antes, dávamos as mãos durante o pôr-do-sol.
E, nesta espécie de feira de enganos em forma de lista, onde estiveram, já, tantos milhares de razões… sobraram só quatro. Tenho três razões para ir embora e só uma para ficar.
O mundo a preto e branco é a minha primeira razão. Sinto-me de papel. Como uma personagem que não escolhe o seu destino. Existo em duas dimensões e nenhuma delas é boa. Como se me movesse, parágrafo a parágrafo, numa história de parca imaginação, cíclica e imponderada. Quem me escreve, não me entende e não me constrói. Deixa-me no limiar dúbio entre ser gente e ser monstro e não ser ninguém. E largam-me as mãos que impacientemente me procuram em mim. Como não me encontram, entre o preto e o branco, assumem, também, que sou papel. E amarrotam-me. E deitam-me fora. Lembram-se de mim outra vez. E recomeça. Sinto-me de papel. Existo em duas dimensões. Já não sei ser gente.
Desta razão, nasce outra. Filha do zelo e das circunstâncias. O nutrir de um profundo desrespeito pela convencionalidade da moral e dos bons costumes que fizeram apodrecer o mundo. Nunca quis apodrecer com o mundo. Talvez tenha apodrecido contra ele. Mas com ele não. Porque nunca quis ser a peça que encaixa onde é suposto, cortando arestas mal feitas com a tesoura da censura e do medo. E sempre amei mais as arestas que me deixavam de fora desse quebra-cabeças insolucionável onde todos são miseravelmente felizes. A lutar contra o mundo, enraiveci os recantos aguçados do diálogo e do movimento. Talvez o zelo se tenha transformado em raiva. Mas é dele que faço muralha. E é nela que me resguardo, sempre que tentam fazer-me dócil. Sei que não sou. Dócil. Tampouco quero sê-lo. E não há espaço para as arestas.
Por fim, a mágoa. Minha irmã. Minha amiga. De longa data. De longo amor. Temos convivido, juntas, numa ilha bem nossa, atirando uma à outra piadas despropositadas sobre a morte precoce. Temos um acordo tácito, sobre como ela se alimenta dos meus pesares e, em retorno, me sustenta a escrita e a adormece, qual aia antiga, embalando-me os sonhos, os dons, as palavras. Pudesse eu sentir no corpo a paixão que lhe dedico e teria, com ela, o mais tórrido dos romances de amor. Mas ela não sabe sentir atração por ninguém. E não tem, de mim, outro sentido que não este, que a faz parte integrante da família dos sentidos. Com ela, vou a todo o lado e disperso facilmente a felicidade, como quem abana a mão em frente ao fumo de um cigarro. Quem vem comigo, quer o fumo. Porque a visão clara do mundo traz dor agarrada nos seus sapatos. E a mágoa que fica depois, essa que trago comigo – minha irmã, minha amiga – ela não é para toda a gente.
Esta é a lista. E, nesta lista, encontro três razões, válidas e concretas, para fazer malas e ir embora. Seria, talvez, um bem universal, ou só teu. Ou um bem para os dois. Ou para os três, posto que não sobra quem se vai colando às paredes rachadas de nós, à espera do tempo e do espaço certo para entrar. Mas sobra-me uma, sabes? Uma razão. Para ficar.
A minha razão para ficar é muito simples: amo-te.
Podia falar de um mundo a cores e em três dimensões, da debilidade inocente, de rosto corado e sorriso nos lábios ou elogiar o bater arrítmico do coração, quando a mágoa vai e é só paixão. Mas a razão não é essa. A razão é outra. Amo-te.
E, nesta concreta lista de prós e contras, que é já a terceira que faço para nós, põe-se na balança tudo. As três razões que se justificam, com medidas de infinitude, longamente; contra a palavrita de cinco letras separadas por um hífen, que nem sequer dá para explicar.
E fico. Com o prato direito da balança a tocar o chão e as dúvidas lançadas ao ar, como se o amor fosse chumbo e me libertasse das penas.
Tenho três razões para ir embora e só uma para ficar. Podiam ser mil razões para ir embora e só uma para ficar. Ficaria, ainda assim. Porque não há razão mais forte. Porque não há motivo mais bonito. Porque não há nada melhor do que aquilo que não se consegue explicar. E a razão é esta. Só esta. Amo-te.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cautela e Caldo de Galinha



O meu bisavô costumava dizê-lo. Cautela e caldo de galinha nunca fez mal a ninguém. Disse-o, provavelmente, porque o seu pai lho dizia. E lhe bebeu as palavras, juntamente com o caldo e a cautela.
No tempo do meu bisavô era tudo diferente. Até a galinha, que não nascia, ainda, depenada e encolhida nas cuvetes de supermercado. Até o caldo, que era rico e aromático, parco de sal mas repleto de sabores do campo. Até a cautela, que se estendia por ruas onde não passavam tantos carros como maus-olhados. Mas era um conselho intemporal, deixado pelo seu pai, que o ouvira do pai dele. E que se repetiu até me chegar. Servido com requinte num prato dourado de muitos passados, na forma de cautela e de caldo de galinha.
Foi um dito que, de tão intrinsecamente nosso, nos moldou ações e nos definiu rumos. Às vezes de maneira espalhafatosa, evidente; mas outras de forma subtil e amena. Foi um dito que se estendeu nos limites murados das nossas peles e nos tornou monstros entre os humanos, cuja cautela é parca e o caldo de galinha não serve.
Na intempestividade das almas modernas, ter cautela já não significa não ir. Porque seria impossível a resistência perante a impulsão audaciosa da aventura e da concretização. Significa ir, por vezes devagar, por vezes a correr. E aceitar os trilhos como caminho, sabendo-os sinuosos e cheios de pedras e abismos. E abraçar essas pedras e esses abismos, até que sejam parte de nós. Fazer deles amigos de longa data, sabendo que é entre os homens e as mulheres que se encontram as barreiras. E acautelando, por isso mesmo, os contactos humanos.
Se nos fere a alma o encontro com a desonestidade e a pobreza de espírito, logo surge um novo acordo eminente. O de aquecer por dentro o que se resguarda longe do olhar alheio, com palavras de alento e caldos de galinha. E neles se curam mágoas. Como se ondeasse, no líquido turvo da tigela, também o conselho que o meu bisavô deu à minha avó e que ela me deu: "Cautela e caldo de galinha nunca fez mal a ninguém".
Levo o conselho comigo. Nas minhas aventuras. Até ao lugar louco onde a cautela, no seu sentido mais lato, não me permitiria chegar. E, ao levá-la, assumo o risco consciente de que posso ficar doente por entre estes mundos, repletos de gente que não teve um bisavô de sábio conselho. Mas vou. Com cautela mas sem medo. Porque é indo que me faço digna das palavras que me chegaram.
E se, no caminho, pedras, abismos ou gentes, cortarem em pedaços a chama da minha intencionalidade e a ferida alastrar pelas ramificações da alma? – perguntaria alguém, em nome da cautela. Sorrio. Não será nada que a cautela e um caldo de galinha não curem. E, se não curarem… também nunca fizeram mal a ninguém.



Marina Ferraz


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terça-feira, 17 de outubro de 2017

As amigas



É volátil. E algo fútil. E totalmente despropositado. Como crianças de infantário, que tendo acesso a trinta bolas azuis, querem sempre aquela que o amiguinho tem na mão. Talvez porque já tenha da sua saliva e das suas impressões digitais. Ou talvez porque dê prazer que o amiguinho não tenha aquela bola azul. Ou, quem sabe, porque o apelo não esteja na bola azul mas nas mãos que a seguram. Lançada ao ar, caindo no centro de todas as bolas azuis, talvez nem se saiba qual era aquela que nos despertava desejo. Ou talvez se saiba, mas já será apenas uma bola, sem nenhum traço de apelo. Acontece. Quando é volátil. E fútil. E totalmente despropositado.
Quando as bolas azuis são olhos e têm partilhas sociais; acompanhadas de uma enunciação do mundo perfeito, da realidade perfeita, do emprego perfeito, do dia perfeito… há um apelo mudo na figura estática e na partilha das palavras. Impele. Apetece. Como um fruto de verão, acabado de arrancar da árvore, fique ferido o ramo que a sustenta ou não.
Toda a gente tem a mais elevada moral. Que se esgota e cuja quebra se justifica na ambiguidade do “tudo por amor”. Mas que amor? Como é fácil amar o que não existe. O que não se conhece. O que não se sabe. É nas lacunas, onde mora só o desconhecido, que se constroem esses amores. Voláteis e fúteis. E despropositados. Com um toque de criança de infantário, que quer aquela bola azul porque sabe que a outra criança a tem.
As melhores pessoas do mundo são as que conhecemos mal. E há uma paixão que é fogo nesse desconhecido. Mas no mergulho em profundidade até ao negro mais escuro de todos os negros da alma, aí reside o amor. Conhecer alguém na debilidade de todos os seus defeitos e sentir um fogo de lareira acesa, alimentada a óleos caros e lenha de pinho, sem fazer contas aos gastos.
E há quem seja. Volátil. Fútil. Totalmente despropositado. Há quem queira uma bola azul que é uma pessoa nas mãos de outra pessoa que, sabe-se lá se não foi ao inferno e voltou. Mas, no conhecimento, algo ambíguo e incompleto, de uma história que é metade da metade da metade que a constrói, parece que o mundo não só é plano, como inclinado para o lado da figura de afeto onde se soma, não a perfeição da perfeição mas a perfeição do desconhecido.
Estima-se que, neste momento, existam, no mundo, 101,8 homens para cada 100 mulheres. Certo que uma percentagem deles serão homossexuais. Mas uma percentagem delas também o será. O que significa, em grosso modo, que existe, por aí, um homem para estas pessoas que insistem na bola azul que já tem mãos em seu redor. Para elas. As amigas.
E, embora seja volátil, fútil, despropositado, há três corações. Quatro. Cinco. Porque se pensa sempre que são casos isolados e nunca são. Batem mil corações na mesma tristeza. E ela também não faz sentido nenhum. Porque se sofre de um mal que não é.
Palavras são só palavras. Faço uso delas. Às vezes como armas. Não sou perfeita. Nunca vou ser perfeita. Mas sou o corpo que se envolve no fim da noite. E o café pela manhã. E o primeiro passo de ajuda na dificuldade. Moderadora de dores. Agente da tomada de decisões e, às vezes, carrasco de força onde só há debilidade. Propostas são só propostas. Palavras são só palavras. E, tirando as que eu digo (ou escrevo), não dizem nada de mim. Dizem muito de quem as esparrama, preto no branco. Dizem muito sobre o que a amizade não é. Nem o amor. Dizem muito sobre ser-se volátil. E fútil. E despropositada.

Marina Ferraz


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terça-feira, 10 de outubro de 2017

Nos teus termos



Para a minha companheira Ali,

No primeiro dia, esperavas junto à porta. E deixaste que me aproximasse de ti. Que te depositasse um toque de calor entre as orelhas. Deixaste que o fizesse e, altivamente, levantaste-te com calma, viraste costas, mudaste de divisão.
Estipulámos os termos: no centro das paredes de uma casa que era tua – e ainda não minha – eras tu que ditavas as regras. Cabia-me cumpri-las. E cumpri.
Habituei-me a povoar a sala. Com uma manta sobre as pernas friorentas. E outra ao lado. E não te deitavas ao meu lado. Deitavas-te lá, na outra ponta do sofá. E depois no meio do sofá. Todos os dias. Um bocadinho mais perto. Sempre ali. Nos teus termos. Até que, um dia, encostando o focinho contra a minha perna, te senti os tremores na delonga da felicidade. E fui depositando festas no teu lombo, à medida que te contorcias. Havia um sorriso nos teus olhos.
Nunca precisámos de palavras para nos entendermos. Do teu mau feitio eu li, não só a personalidade intensa, como também a doença que acabaria por se confirmar. Mas tínhamos um pacto, tu e eu, o pacto de calar muitas mágoas com sorrisos e goluseimas de frango ou peixe.
Não eras fácil. Muito longe disso. Ter a casa à minha maneira contigo por perto era impossível. Porquê? Porque não era a minha casa. Era a tua. Nos teus termos. E, de alguma forma, era bom estar em tua casa e servir um pouco destes interesses mal humorados que sempre pagavas, em medidas de amor, de carinho e de companheirismo.
Ficámos só as duas muitas vezes, olhando pelas janelas. Contando flores e partilhando horas como se fossem pequenos tesouros. E, quando não estavas ao meu lado, ficava a ouvir-te o tiquetaquear dos passos pela casa. Um som que fez de banda sonora a tantos e tantos momentos da vida.
Pela manhã, trepavas para as costas do teu dono. Aninhavas-te ali. Uma imagem de doçura, por entre a cama desfeita, com ele bebendo o café e contigo a dizeres bom dia. E, olhando nos meus olhos, semicerravas os teus e abrias de novo. Um “gosto de ti” em linguagem sem voz, que eu repetia, em silêncio.
Foi sempre nos teus termos. E, por isso, nem nunca gritaste por aí que me adoravas, nem eu a ti. Habituámo-nos, simplesmente, a senti-lo, partilhando um segredo. No nosso mau feitio, nunca achámos que alguém tivesse algo a ver com isso.
Ficaste mais doente. Levei-te ao médico e ele tirou-te a doença. E saí de lá a sorrir, na perspetiva de ter a tua companhia por muitos e muitos anos. Mas, não contente com o dano já causado, esse tumor estendeu os dedos até que eles te preenchessem por dentro. E, de súbito, ouvir-te respirar doía como facas no coração. Confirmámos as suspeitas e soubemos. Não tínhamos muito tempo na tua companhia.
Eras forte e sabias o que querias. Ditaste sempre as normas, na casa que era tua. Eras guerreira e tinhas nascido para vencer. Não pude ver-te perder essa batalha contra a doença. E decidi, porque te conheço, cumprir o desejo dos olhos que pediam para não sofrer mais.
Fica-me uma casa vazia. Sem o tiquetaquear das tuas patinhas pelo soalho. Sem o pedido, quase mudo, pelas goluseimas. Fica-me uma casa sem dono. Uma casa na qual as normas adormeceram e as dúvidas se somam, cantando na voz da ausência.
Ficam-me a saudade, em dois beijos depositados sobre o pelo e com as palavras “vai ficar tudo bem, princesa”. Disse-as. Acreditando nelas. E incapaz de olhar para ti, com medo de ceder ao egoísmo que não me tolerarias. Deixei-te ir. Vitoriosa e nos teus termos. Não podia ser de outra maneira.
Fico à tua espera, na dimensão astral. Adoro-te e quero crer que, todos os dias, te vais sentar comigo no sofá. Cada dia, um bocadinho mais perto. Até que a doença me leve também para eu viver pela eternidade. Ao teu lado. Depositando um toque de calor entre as tuas orelhas. Se me deres essa honra. Porque foi e há-de ser sempre tudo nos teus termos.

Até já, Ali



Marina Ferraz


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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Um beijo antes de dormir



Para a minha avó

Batem as nove. Bate a saudade. Bate o desejo de ouvir a tua voz. Um bater incompreensível de ideias. Esbatidas mas constantes. No bater do ponteiro dos minutos e das horas. No bater das nove.
Bate o cansaço. E a vontade de saber que estás bem. Bate o coração. Compassado. Descompassado. Cheio de amor. Batem, no bater das nove.
Bate à porta a noite que se queda. E cai, com ela, um sol que me é destino e passagem, no nascer da lua. Conforta-me a ideia da lua, que é a mesma na distância entre nós, e nos faz presença. Quando bate. A saudade. Pelas nove.
Batem as nove. Bate a saudade. Bate o desejo de ouvir a tua voz. Já se faz noite. Já se faz hora. Toca o sinal da recolha. Toca uma música na rádio. Toca o sino na distância. A anunciar. O toque do amor. Que ecoa nas entrelinhas do nosso encantamento. Que ecoa na vontade da troca de palavras. Batem as nove. Toca o sino. E o telefone também.
Toca o telefone. Nele, a tua voz traz o bater do carinho, feito aconchego. As tuas palavras são cobertores bem puxados junto às orelhas e camas preparadas com cautela. E, na tua voz, toca-me, com um saudosismo inerente, a mão que me afaga a vida e me dá alento para suportar a noite que queda e o dia que vem a seguir. Toca o telefone e tocas-me, com as pontas dos dedos da voz. Há traços de canto na melodia das palavras que me dedicas. Todas as noites. No bater das nove.
Uma canção de embalar. Vem em forma de rotina. No bater das nove. No toque do telefone. Todos os dias. Quando me bate a saudade. E me acautelas o medo dos mostrengos que se escondem nas sombras do meu desassossego. Há amor na tua voz. E ele é luz. E não há sombras quando falas comigo.
Batem as nove. Bate a saudade. Tocas-me na distância da chamada. E ficas perto. Até que o calor do abraço pensado se faz gente e me envolve, mesmo longe. Há um calor que me adentra. Vem de ti. No bater das nove. E fica a rondar, noite fora, abençoando-me as madrugadas.
Nos dias bons. Nos dias maus. Nos dias. Bate. Pelas nove. Esta vontade de te sentir. E vens. Religiosamente. Com a tua voz. E o teu amor. E o teu carinho. Cheia de tudo o que falta ao mundo. Fazes parar o relógio na ternura da tua voz. Ficas próxima, por alguns minutos, na presença quente das palavras. Abraças-me, assim, até aos ossos, até à alma, até ao coração. E ficas dentro dele. Permanentemente. A tempo inteiro. Gosto de te ter lá.
É um amor que me bate no peito o dia todo. Concretizando-se, todos os dias. Com um beijo antes de dormir. No bater das nove.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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domingo, 1 de outubro de 2017

Açúcar no café amargo



Para o meu avô



Ainda me sento contigo à mesa. Puxamos os dois para o canto a toalha que nunca nos fez a vontade e a fruteira. E sentamo-nos. Lado a lado. A toalha é, hoje, a ideia da morte. E a fruteira é a sanidade. Mas não faz mal. Sentamo-nos na mesa do meu pensamento. E continuamos a conversa que deixámos a meio ontem. Sobre tudo e nada. Um pouco mais sobre tudo. Porque não há espaços para vazios quando estamos juntos.
Queres saber de mim. Eu não quero falar sobre mim. E faço café. Em vez de falar. Também queres um. E eu sirvo-to com agrado. Levo o açucareiro para a mesa. Depositas três colheres bem cheias, que fazem estremecer a espuma ligeira do topo, até que disperse. E ficas à espera que assente no fundo o açúcar e que eu te responda à pergunta. Saberás, talvez, a resposta melhor do que ninguém. Bebemos o café. Nunca gostei de falar de mim. Mas tu entendes. Eu saio a alguém. E o café aquece as almas.
De chávenas na mão, olhamos para o líquido. Procuramos respostas. E vejo que levas aos lábios o amargo do café que não mexeste. Mexo o meu mas, neste dia, sabe-me também amargo. Sabe a saudade. Uma saudade intolerante e ausente que tem, no fundo, por mexer, três colheres cheias de açúcar.
Perguntei-te, certa vez, por que punhas tanto açúcar no café, se mal o mexias e o bebias amargo. Respondeste que guardavas o melhor para o fim. Assim, poeta do dia-a-dia, com toda a simplicidade, ensinaste-me para a vida. Primeiro o amargo, depois o doce. Como o trabalho e o sucesso. O esforço e a conquista. A luta e a concretização. A saudade e o reencontro.
Hoje sento-me contigo na mesa do meu pensamento. Puxamos para o lado a ideia da morte e a sanidade. Damos as mãos em silêncio. E, para que as respostas sejam dadas pelos olhos que se quedam sempre na ideia da despedida, eu vou pôr a cafeteira ao lume. E sirvo duas chávenas de café. Uma para ti. Uma para mim.
Exagero no açúcar no café. Mal o mexo. Deixo o melhor para o fim. Primeiro bebo o café. Depois o açúcar. E, no finzinho, bebo a memória que me prende a ti. No final, entre amargo e doce e eternidade, o café sabe a amor.
E é um amor que nos deixa sentar. Na mesa. Esta mesa. Nela, puxamos para o lado a ideia da morte, em forma de toalha. E a sanidade, em forma de fruteira. Partilhamos este momento, repetindo-o, casualmente, sempre que a saudade aperta. E bebemos. Primeiro o café. Depois o açúcar. Depois o amor. Porquê? Porque guardamos o melhor para o fim. E o melhor é isto. Isto que ninguém sabe. Mas que é quente e doce. E meu. E teu. E que te mantém vivo e presente. Explicando-me a vida como quem explica o açúcar no café amargo.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Lava - Usa - Repete



O amor encapsulado. Pré-feito. Lavável. Reutilizável. E com uma nova tecnologia à prova de nódoas. Com toda a comodidade e sem nenhum trabalho. Com entrega ao domicílio. Sem custos adicionais. Nem taxas. Ou com IVA a 6%. Um bem essencial, para todos os efeitos. De luxo, em todos os aspetos, exceto no preço.
Basta abrir a embalagem. É reciclável. Tem um tempo de vida variável. Modo de uso espontâneo. Livro de instruções integrado. Com três palavras apenas. Lava, usa, repete. Em vinte línguas distintas. Num dialeto comum. Com braile. Para os deficientes invisuais. E com imagens exemplificativas. Para os deficientes emocionais.
Lava. Usa. Repete. O amor encapsulado. Venda aberta. Sem receita. Deduções mediante prescrição. Descontos às segundas-feiras. Como o cinema. Imagens meramente ilustrativas. Modelo não incluída no valor base.
Disponível em três modelos distintos e em cinco cores de pantone patenteado. Personalizado mediante avaliação de pedido e com preço sob consulta. Trocas e devoluções por um período de 15 dias. Devolução do dinheiro em caso de insatisfação.
O amor encapsulado. Lava. Usa. Repete. Não tem limites etários nem contraindicações. Adequa-se a hipertensos, intolerantes ao glúten ou à lactose e também a celíacos. Pode ser consumido por vegans ou vegetarianos. Não foi testado em animais irracionais. E, nos racionais, os efeitos foram sempre categóricos, formais e indiscutíveis na medida do expectável.
Tem uma taxa de sucesso de 100%. 101, se considerarmos que transborda adequação mesmo nos aspetos que carecem de teste. Está em vários pontos de venda. Em todos com exclusividade anunciada à porta.
PVP adequado às necessidades de cada consumidor. Maior durante períodos de sobriedade. Descontos mediante índices alcoólicos elevados e acumuláveis com outras promoções em vigor.
O amor encapsulado. Lava. Usa. Repete. Rápido e sem constrangimentos. Dispensa a consulta da versão integral dos termos regulatórios de acordo com a legislação em vigor. Não obedece a normativas da U.E. Uso individual ou fins de partilha. Botão único de ligar/desligar. Duradouro mas descartável.
O amor encapsulado. Responde por outros nomes e normas semânticas. Lava. Usa. Repete. Prazer. Paixão. Loucura. Terminologias infindáveis. Nomes rotativos. Permanência na continuidade das nomenclaturas. Rápido. Simples. Eficaz. A termo.
O amor encapsulado. Lava. Usa. Repete. Esconde no armário. Esquece. Instantâneo, como tudo o que é eterno. Frase feita. Cliché. Sorriso nos lábios de cima. Um asterisco precedendo a inevitabilidade da procura encontrada sem a mínima nuance de imperfeição. Lava. Usa. Repete. Diz que foi amor. O mundo vai anuir. É ambientalmente seguro. Normativamente comum. Perfidamente aceitável. E eu finjo que acredito.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 19 de setembro de 2017

Notas sobre o amor incondicional



Amo-te.
E, porque te amo, sei coisas sobre ti que ninguém sabe. Como a cor dos teus olhos quando estás triste.
Porque te amo, sei de cor todas as palavras dos teus silêncios e faço dissertações das parcas palavras que me escondem universos de sobrecarga. Porque te amo, não te obrigo a falar mas insisto em ler-te, feito livro, nos passos e expressões. E, olhando para mim, eu acho que tu sabes que eu sei muito mais do que as conversas nos deixam partilhar por entre a simplicidade dos temas mais vagos.
Porque te amo, amo a sensação dispersa de que retiras de um abraço dado “porque sim”, alento para as mágoas que não dizes. Então, tenho mil abraços para dar, na esperança de que algum te envolva o corpo no local onde sangra essa ferida imaginária que eu apenas imagino.
E, se calha olhar para ti quando estás ausente, vagueando pelas memórias e os sonhos, tentando matar ambos com ideologias ainda sem corpo, eu entendo que, venha o que vier, não existe no mundo uma única nuance que possa roubar de mim o desejo e a vontade intensa de passar contigo eternidades em segundos.
Porque te amo, conheço-te bem os traços da beleza que, começando na pele, entra nos poros e chega até à tua alma e até ao teu coração. Tens um coração dócil, embora sejas fogo. Tens uma alma cautelosa, embora sejas acutilante. E é neles que respiro fundo a sensibilidade meio orgulhosa que me faz crer que fiz parte dessa construção.
Não há. Não existe. Nada. Ninguém. Nunca. Não há o que possa mudar a minha imagem de ti. Porque sou cúmplice até dos crimes que não sei que cometeste. Porque o seria, ainda que soubesse de cor a sua solidez.
Não concordo sempre contigo. Mas estou sempre contigo. E não te largo a mão nem que acabemos as duas no fundo do mesmo abismo. Se cairmos, não faz mal. Temos asas. Tu e eu. Ainda que eu o saiba e tu ainda não. Talvez descubras na queda. Ou talvez uses as minhas. As minhas asas vão bastar, enquanto não abrires as tuas.
Quero que sorrias. E que sofras, também, de vez em quando, porque a dor te acrescenta conhecimentos sobre ti mesma e sobre o mundo que te acolhe. Quero que lutes pelos sonhos. Quero que ames. E que não esgotes o amor em quem não te merece. E, se pelo caminho, amares dez ou vinte ou um milhão de vezes, não tenhas medo… é pior não saber amar do que acreditar no amor, vez após vez. E, um dia, por entre as tentativas e erros do amor, alguém que te respeita e te merece, alguém que não te diminui nem te castra, vai aparecer e ajudar-te. A abrir as asas. Essas que não sabes que tens. E a voar.
Amo-te e tenho orgulho em ti. No talento que te move os passos. Na imagem que te distingue, nos corredores da vida, de tantos quantos pisam flores. No interior onde se espelha o arco-íris. Tenho orgulho em ti. Porque me fazes ser uma pessoa melhor. E me fazes querer um mundo melhor.
Amo-te e sei que não sabes a extensão do meu amor. Amo-te e sei que não sabes que já me salvaste a vida. Amo-te e sei que não sabes que és, também, a vida que me salvaste. Amo-te e tenho, ao olhar para ti, acesso à única paisagem que nenhum homem e nenhum Deus pode destruir.
Há céus e mares. E há os teus olhos. E há um coração no meu peito que bate. Mas não é só meu. É nosso. Incondicionalmente.



Marina Ferraz


*Imagem retirada da Internet




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terça-feira, 12 de setembro de 2017

Case




Eu quero que ela case.
Quero que ela case com os sonhos e com a vida. Que deles faça ponto de chegada. Que deles faça ponto de saída. E que vá, apaixonando-se aos poucos por cada uma das estrelas. Cabem-lhe todas no peito. Porque coração que não transborda amor, não ama o suficiente.
Ocasionalmente, eu quero que ela perca o “C”. Quero que ela “ase”. Quero que se liberte das Contrariedades, das Correntes, das Chamadas, do Choros, das Companhias Castradoras que a impedem de voar. Quero que ela perca o “C”. E que “ase”. Como quem tem asas. Voando por aí.
Quero que ela não se perca “CÁ”. Que o largue também, para não sobrar um “SE”como pergunta eterna. Perder-se cá, seria ficar, nos lábios com muitos ses. Não! Que não haja “se” na vida dela. Em vez disso que “ase”, que case com a vida e com o mundo das possibilidades que o mundo abre a quem vai.
Se, pelo caminho, perder inícios e terminações, quero que ela seja sem “C”, sem “E”. Quero “as” melhores coisas, a abrirem portas às suas asas gigantes, tão mais pequenas do que o coração onde cabe amor para todas as estrelas do céu.
Sim, eu quero que ela case.
Quero que, na sua simplicidade, ela encontre caminhos seus, onde os espinhos sejam desfeitos em rosa. E a rosa seja aromática e plena, crescendo silvestre na poesia dos seus pensamentos mais loucos.
Casa, pequena, casa. Mas não com o “C”. Usa essa asa fechada atrás de ti. Deixa que abra. Letra a letra. A. Letra a letra. S. Letra a letra. A. Vai. É uma capicua de palavras. E um mundo que se repete no pedido mudo para que não te percas aqui.
Sim. Eu quero que ela case. 
Com o infinito onde moram as estrelas.
Com o coração onde o amor transborda.
Com o sorriso das possibilidades que moram no centro de uma paixão pela vida.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Adeus



adeus.
uma palavra que surgiu por um momento,
a adaga que arrancou um sentimento
destes braços que eram teus.

adeus.
uma expressão que, de alegre, foi sofrida
que, de tanto me matar, me deu a vida,
no instante de segredos só meus.

respira
o ar do universo é sublimado
pelo traço nevoento do passado
onde de um amor nasceu a ira.

e se dói o aroma a despedida,
não dói mais que a certeza que hoje trago:
o saber deste amor cruel e vago
que, de tão pouco ser, foi uma vida!


Marina Ferraz


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quinta-feira, 31 de agosto de 2017

A dor que senti



A dor que senti lá atrás
Serviu-me de emenda
Aprendi a tratar a mágoa
Com respeito:
Abro-lhe as portas do peito,
Sorrio ao vê-la chegar.
Não sei quanto vai ficar
E, porque não sei, aceito.
Dou-lhe mesa, dou-lhe leito
No aconchego perfeito
De quem não a quer expulsar.

A dor serviu-me de emenda:
Aprendi que sou capaz
De andar com o peso alheio,
Arrastando as coisas más.
Trato a mágoa com respeito
E até lhe quero bem:
Foi nela que adormeci
Chorando em noites sem fim
Quando não estava ninguém.


Marina Ferraz


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terça-feira, 22 de agosto de 2017

Acho que prefiro a solidão



Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser crua, mas não é cruel.
Dar a mão ao vento ou dá-la a alguém que a aperta, que a larga. Que a recebe e a usa como guia na cegueira. Só. Sem que outro motivo se encontre nesse ato. O de dar as mãos. Seguir o vento. Antes o vento. Até ao abismo que leva ao mar. Até ao mar que não fere a alma.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ferir mas não infeta.
Sentir o corte. O frio cortante da água desse mar. E dar o corpo à sensação. Do toque das águas. Ou dá-lo na cama. Ao calor. De abraços que viram correntes e nos arrastam para baixo. Sempre. Afogar no fogo e morrer quando a perda de fôlego se transforma em sufoco e nos impede a vida. Uma dor que é oceano.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode doer mas não massacra.
O olhar do sol que nos faz rasgos argilosos na alma. Sentir o moldar do tempo, feito de barro, nos nós dos dedos que se apertam no vazio. Ou o olhar de alguém que um dia nos vê mundo e, no outro, nos vê no mundo. E depois nem nos cantos concretos do nada ou nas ilusões da plenitude.
Acho.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode matar, mas não tortura.
Sonhos cadentes nas estrelas que se alinham pelos traços da mão onde a sina cigana se leu. Eternidades de incontável desespero, que é galáxia sempre em torno de nós. Um desapego que se faz universo. Ou universos nas mãos do amor que se torna sonho maior. Alfa. E destrói o que fica fora dos meandros do seu controlo afetivo. Efetivo. Um medo que não se diz e que tem pernas e braços e lugares que nunca serão visitados. Além dos limites da vida. Além dos limites do tempo.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser triste, mas não é miserável.
Ela pode ser mácula mas não é rasgão.
Ela pode ser linha, mas não é rasura.
Acho que prefiro a solidão. Ela pode ser sozinha. Mas não é só.

Marina Ferraz


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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

(A)mar


Mar. Como a-mar. Um gelo que se desfaz e que tolhe sentidos. Que olha nos olhos e os mareja. De mágoa. E sal. De maresia.
São olhos marejados. De mar. Como a-mar. Um esmorecer do tempo e dos sentidos. Como vento. Como sombra. Como sobra.
Olhos magoados. Mágoa que se faz dor e mata. Mar. Maré. De ilusão poente, sob os raios do final da vida.
Mar. Como a-mar. Há mares no teu nome. E identidades frouxas entre os teus dedos por não os dares a ninguém. Como se os traços das mãos fossem desenhos criados pelos depojos do tempo e quisesses lê-los de trás para a frente, numa demanda por ouro e especiarias.
Mar. Como a-mar. Só que com ondas que se fazem espuma em vez de ansiedade. E agruras que dispersam. E algas em vez de alguéns. Algures. Além. Uma espécie de céu que se reflete e é só chuva e que se liberta apenas para se prender de novo nos enleios de insanidade.
Mar. Como a-mar. Uma infinitude desfeita. Que embate contra margens de concreto e nelas causa desgaste. O erodir da alma sob correntes frias de desolação. E nelas nadam promessas que não serão cumpridas, boatos que não serão verdade e opiniões que ninguém pediu. São corais secos, empetrecidos e cinzentos, que abrigam memórias e desalentos de tempos e histórias e tempos sem história e histórias sem tempo.
Mar. Como a-mar. Olho. Pergunto quem é. Mas não sei quem sou. E, como não há resposta, fico-me a perguntar se, lá no fundo do mar, há um espaço para mim. Para a-mar. Como em mar. Mas feliz.

Marina Ferraz


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quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Em nome da nossa Mãe




Caro Senhor Presidente,

Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. E afaga-me o rosto com a mão do vento, assegurando-me de que vai ficar tudo bem. Na sua suavidade primaveril, ela vai dizendo que nos ama. A mim e a si. E a todos os outros filhos, de forma igual.
Na noite, ela ainda me embala com a mesma canção lunar que também a si chega, sem cobranças nem palavras de ódio, nem ressentimentos. E, nos dias de sol, ela ainda nos beija a pele, dando-nos a dádiva dourada da felicidade estival.
A nossa mãe não deixou de o amar. Ainda é dela a respiração que lhe permite subir aos tronos onde se cultivam guindastes e se semeia betão. Ainda é dela o ar que faz vibrar as cordas vocais, permitindo que chovam torrentes de detrito orgânico que não servem nem os fins da fertilização dos campos agrícolas.
Ela não deixou de o amar. Mas eu disse-lhe: «Mãe, este homem que te ofende e te destrói não é meu irmão e não o amo». Pacientemente, ela fez-me olhar a distância. Perder as contas das estrelas e dos rasgos de luz no mar. Esquecer a mágoa nas clareiras das árvores. Aprender a cantar juntamente com as cotovias simplesmente porque amanhece. E, abrindo-me os olhos com uma suavidade só sua, respondeu. «Não semeies ódio, esperando que te cresça amor». E eu aprendi, aos pouquinhos, com uma paciência muito menor do que a da nossa mãe, a não o odiar.
Não lhe vou pedir que saia da sua mansão de pedra branca para visitar esta mãe que tanto o ama… porque sei que, provavelmente, lhe veria apenas o potencial rentável na destruição, qual filho que não quer mais do que herança que vem depois da morte. Mas escrevo, ainda assim. E faço-o porque a minha geração terá filhos, e os seus filhos terão filhos que serão também pais, mais tarde. E nesta história de nascimentos e vidas, a nossa mãe poderá começar a sentir a revolta que as suas mãos plantam – com ódio – esperando, não amor, mas lucro.
Não vou dizer para abrir os olhos. Não. Para quê? De olhos abertos, ainda será cego, no encadeamento desse ouro que não vai levar para a cova. Mas vou dizer que sei que, no final, no derradeiro final, vai cumprir o desejo da nossa mãe.
Senhor presidente. A terra que governa, têm-a por sua. Mas não o é. Não é a Terra que nos pertence. Somos nós que pertencemos à Terra. E a mãe que nos dá vida e nos abarca, recebe-nos num abraço que nos torna, também a nós Terra. Havemos de a fertilizar, com a nossa carne e os nossos ossos. Havemos ser unos com ela e uns com os outros.
Senhor presidente. Escrevo-lhe em nome da nossa mãe. E gostaria de dizer que ela o condena. Mas não. Ela não precisa de si, nem do seu esforço, nem da sua redenção. Por mais que lhe tire, de forma abrupta e sem consideração, ela continuará a dar, sem pedir nada em troca.
Senhor presidente. Hoje planto palavras onde não quero silêncios. E falo em nome de uma mãe cuja voz soará muito depois de não se ouvirem os seus gritos no púlpito. Escute. Está em todo o lado. No sopro do vento. No toque da terra. No nascer do sol. E cada dia que nasce é uma vitória. Porque ela, que só lhe quer bem, fica um passo mais perto do abraço que, em medidas ilógicas, hoje não pode dar. Aquele abraço final que se dá na terra, à medida que nos arrefece o corpo e nos vinga alma. Aquele abraço que se dá quando nós próprios retornamos à origem e nos tornamos mais ricos do que a ganância humana.
Senhor presidente. Escrevo em nome da mãe. Da Natureza. Ela não me pediu que o fizesse e não o faria por si só. Diz, por ações, que não precisa. Mas sei que anseia por o encontrar, para esse abraço final que vos tornará unos. Anseia. E todos nós, senhor presidente, talvez com um pouquinho mais de rancor no coração, ansiamos o mesmo.



Marina Ferraz


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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

O umbigo



Quando eu era pequena, os meus pais diziam-me, às vezes “não tens umbigo”. E eu, muito aborrecida, lá puxava para cima as camisolas interiores, exteriores, casacos e mais o que houvesse para puxar, apenas para provar que, no centro da minha barriga, estava esse buraquinho que eles diziam que não tinha.
Ser criança tem destas coisas.
De alguma forma, nessa fase, eu não dizia que tinha umbigo. Mostrava-o. Talvez porque a inteligência infantil nos faça saber que os adultos não acreditam em nada que não vejam. E, ao mostrá-lo, vinham risos e cócegas e mais risos. Que me distraíam daquela frase que me perturbava. “Não tens umbigo”.
Ser criança tem destas coisas.
Cresci a saber que o tinha – o umbigo. De alguma forma, assumi que, como eu, toda a gente tinha um, embora não fizesse muito caso disso. Era natural e pouco importante. Como quase tudo, na fase em que os sonhos – tão reais como o umbigo – se manifestam e traduzem em momentos de ilusão, fomentados pela televisão e aniquilados pelas escolas.
Ser criança tem destas coisas.
Talvez por não pensar muito nele, o umbigo nunca me incomodou. Até começar a perceber que ele podia, muito bem, ser o centro. Não o meu centro. O centro do mundo. E que, da mesma maneira, o umbigo dos outros podia ser, para eles, a mesma coisa.
Descobri com facilidade que, para muita gente, é mesmo assim. Nunca ninguém lhes tinha dito que não tinham umbigo. E, talvez por isso, exibiam com frequência e por necessidade demente essa parte de si.
Algumas pessoas que conheci passavam tanto tempo a olhar para o próprio umbigo que se esqueciam de tudo o resto. Até de quem estava perto. Até dos sonhos que deviam ter cultivado. Esqueciam. Olhavam apenas o próprio umbigo, com uma fascinação tão grande que era como se não soubessem antes que ele estava ali.
Encontrei dessas pessoas nas escolas, é verdade. Mas também no trabalho. Também nas filas dos supermercados. Até mesmo na tela da televisão, principalmente nos canais de discussão política.
Um verdadeiro programa do reino animal, com programação alargada e espetáculo ao vivo em cada recanto da rua. As pessoas fazem um reality show dos seus umbigos e é para eles que olham a tempo inteiro. Às vezes, sem mesmo precisarem de levantar as camisolas interiores e exteriores e os casacos. Descobrem-no e fascinam-se com ele. Torna-se um vício. Olhar para ele. E só.
Incapazes de viverem sem esse amor profundo que desenvolvem pelo próprio umbigo. Que, provavelmente, antes nem sabiam que tinham, as pessoas dedicam todos os seus passos ao mesmo. E todas as justificações são feitas em torno dele. Do umbigo.
Ser adulto tem destas coisas.
Fico feliz que me tenham dito que eu não tinha umbigo. Tornou-me consciente de que o tinha e livrou-me da necessidade de olhar constantemente para ele. Às vezes olho. E, num ou outro momento, também faço dele o centro do mundo. Mas não é sempre. Porque aprendi, em criança, que, provavelmente, não era só eu que tinha umbigo. E que o umbigo dos outros devia ser como o meu.
No olhar que às vezes lanço sobre o meu umbigo, sinto que perco paisagens do mundo e oportunidades. Então, faço por não olhar muitas vezes só para ele. Mas, quando os olhos me largam esse ponto epicêntrico da barriga, o cenário é simples: está toda a gente a olhar para o próprio umbigo.
Um fascínio que não se quebra com a constatação de que ele existe. O umbigo. E que move as pessoas. E que toma decisões pelas pessoas. E que faz as pessoas viver em torno de uma coisa só. O seu próprio umbigo.


Marina Ferraz


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

Passos retos


Ele deu passos retos. Como lhe haviam ensinado os pais que, sendo gente sem posses, eram ainda assim exemplo nas teceduras da honestidade. Acreditara nas palavras que tinham ensinado, sempre em sotaques campestres e meio perdidos na formulação das ideias. "Faz o bem e bem te virá".
Ele deu passos retos. No dia de pagar as contas, o recibo sobre a mesa indicava que tudo se saldara. Mesmo no café usual, se acaso esquecia a carteira, nunca pedia fiado. Fazia os quilómetros que o separavam da casa, fizesse chuva ou sol, a pé, para ir buscar os cêntimos que lhe tinham faltado e, no regresso, deixava ainda a gorjeta em agradecimento pela compreensão demonstrada pela demora.
Ele deu passos retos. Nas caixas dos supermercados cedia passagem, não só a idosos, grávidas e deficientes. Cedia passagem à senhora que olhava para o relógio com medo de perder os transportes e à adolescente que levava apenas um snack para o lanche da manhã. E, chegando junto do funcionário desagradável, perguntava como ia a vida, esperava resposta e deixava, juntamente com o pagamento, duas palavras de alento para o dia.
Ele deu passos retos. Se ao passar na rua via no chão um papel, logo se curvava para o apanhar e o depositar no balde do lixo e, se acaso sabia que alguns metros mais à frente havia um contentor de reciclagem, avançava para ele, colocando com cuidado cada despojo no lugar que lhe cabia.
Ele deu passos retos. Quando chegava ao prédio, se acaso a empregada tinha acabado de passar esfregona, aguardava um pouco que o chão secasse. E nunca lhe dizia que era por isso. “Pode entrar, senhor Eduardo!”, mas ele não entrava. Dizia que aproveitar o sol lhe fazia bem aos ossos e aproveitava por perguntar à Dona Lurdes pelos filhos e os netos que moravam longe, na Alemanha. E ela sorria com os olhos e mostrava fotografias mal tiradas e amarrotadas que trazia no bolso do avental.
Ele deu passos retos. Um dia, andando na rua, encontrou um anel de diamante. Pensou que alguém estaria triste por ter perdido um anel de aspeto singelamente valioso. Desviou-se do seu caminho para passar na esquadra. Entregou o anel. O agente pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o chefe. O chefe pediu que aguardasse. Aguardou. Veio o superior do chefe. Pediu que aguardasse. Aguardou. O anel tinha sido roubado. Disseram. Pediram que contasse a história. Contou. Uma vez. Duas. Três vezes. Acusaram-no de roubo. Disseram que deveria pagar uma coima ou que o tomariam em custódia. Não tinha dinheiro para a coima. Encarceraram-no.
Sentado na cela de paredes lisas, ele contou os dias. Traços retos. Quatro a quatro, cortados. Muitos. À espera da justiça. Cada um dos seus passos era agora um traço. E mais um, que fez sobre as palavras dos seus pais: "Faz o bem e bem te virá".
Era uma frase sábia mas fora de tempo.
E não havia mais tempo.
Esgotaram-se os passos.
Esgotaram-se os traços.
Esgotaram-se os dias.


Marina Ferraz


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